domingo, 7 de dezembro de 2008

Walshómetro

Lido o que se diz sobre Hunger no Ípsilon e no Actual deste fim-de-semana (onde se destacam os belos textos de Luís Miguel Oliveira e de Óscar Faria) podem-se contabilizar exactamente zero referências ao contributo do co-argumentista Enda Walsh - ainda bem, de contrário lá se ia a minha teoria. Quem chega mais perto, guinando no último cruzamento possível, é Óscar Faria, que chama a atenção para um desejo impossível de McQueen: ter Beckett como argumentista. A verdade é que entre os vivos, e na categoria "dramaturgo irlandês", não lhe podia ter saído na rifa ninguém melhor que Enda Walsh (é aliás curiosa a vontade de trabalhar com um dramaturgo e não com um argumentista).
Quase todos os textos reparam e bem na cena da conversa entre Sands e o padre. Mas vale talvez a pena corrigir o seguinte: embora só tenha visto o filme uma vez, posso garantir que, ao contrário do que escreve José Marmeleira no Ípsilon, essa conversa não é "filmada num único take de 20 minutos". Há de facto um longo plano fixo de conjunto, mas a partir de certa altura (julgo que quando Sands começa a contar a história de infância com o potro moribundo) a découpage passa a ser feita em campo-contracampo, com planos aliás bastante apertados. Porque é que isto é importante? Acho que há qualquer coisa de pragmatismo inglês nesta procura de "sujar" com um pouco de bom-senso uma decisão formal arriscada: quando a psicologia exige, o que é que pode ser melhor que um grande-plano?

3 comentários:

Zé M disse...

mas mesmo assim esse grande plano dar ares de bastante formalidade. primeiro porque é marcadíssimo (agora vou contar a história "dostoievskiana"), depois porque não é campo/contra-campo, é plano fixo no narrador. Só quando acaba a história voltamos a ver o padre. abr

FF disse...

Pois é, lembra a história do cavalo do Crime e Castigo...
E sim, não deixa de haver preocupação formal: o gajo é inglês mas é artista plástico!
Mas acho que se pode continuar a falar em campo-contracampo, a sintaxe, pela sua simetria, é essa: primeiro um plano de Sands, depois outro (igualmente apertado) do seu interlocutor(não sei se há mais). Não tem de haver ping-pong.

Zé M disse...

mmmmmmmmmmmmmmmmmmm... tá bem.