sexta-feira, 27 de junho de 2008
4. Cf3 c6
P.S. Pós-modernos, os Nature Theater of Oklahoma? Isso não é coisa que se chame a ninguém!
P.S.2 Depois da investigação da Cristina a minha suspeita fica praticamente confirmada: Kafka nunca escreve "Naturteater" e é Brod que usa a expressão para titular o capítulo (talvez baseando-se em conversas com o próprio K.); no texto do cartaz, mesmo na versão de Brod, a expressão não ocorre; foram os NTO quem fez essa alteração mínima e conveniente na tradução que apresentam no seu site (pós-modernices? inclino-me mais para a saudável aldrabice que todos os artistas devem praticar em maior ou menor grau).
Sete Manias
1. mania de que é preciso gostar do texto que se encena.Luís Miguel Cintra
2. mania de que a encenação é a arte da coerência.
3. mania de que o palco é um lugar assim chamado.
4. mania de que se a marcação existe é para se ver.
5. mania de que não há razão nenhuma para que o corpo dos actores e os cenários não sejam mentirosos.
6. mania das coisas praticáveis.
7. mania das coisas significativas.
Do programa de Anfitrião de António José da Silva pelo Grupo de Teatro da Faculdade de Letras, Março de 1969
O palco é um lugar assim chamado
Peter Brook
O Espaço Vazio
Orfeu Negro, 2008,
trad. Rui Lopes,
213 págs.
Quando O Espaço Vazio foi publicado, quarenta anos antes desta rigorosa primeira tradução em Portugal, Peter Brook não era a estrela do teatro multicultural em que se tornaria. Mas estava num lugar único para fazer um diagnóstico: entre Shakespeare com os maiores e uma criação colectiva sobre o Vietname; desde investigar o Teatro da Crueldade de Artaud a considerar Brecht “a figura-chave do nosso tempo”. O Espaço Vazio resulta desta posição privilegiada e eclectismo. Sabe que ficará datado, mas continua a ser um retrato vivo de um século de tensões.
Brook descreve quatro tipos de teatro (um por capítulo): do Aborrecimento Mortal, Sagrado, Bruto e Imediato. O primeiro é o inimigo que espreita sempre, e não só no teatro comercial ou nas produções bem-comportadas dos clássicos; o segundo e o terceiro são correntes activas mas com limitações; o quarto é o que Brook reserva para si, ao mesmo tempo síntese e ponto cego: a expressão “Teatro Imediato”, no capítulo correspondente, só ocorre no título.
A dicotomia Sagrado vs. Bruto é poderosa: se um quer tornar visível o invisível, explorando as paisagens interiores e podendo aspirar a um sacerdócio, o outro é sujo e festivo, lugar por excelência do político. De um lado Artaud, Grotowski, Beckett (higienizado para caber aqui); do outro Brecht. Há saída desta dialéctica? “Em Shakespeare, temos Brecht e Beckett irreconciliados.” Brook procura um novo teatro isabelino, uma relação com o público necessária e ambiciosa. Serve-se de todos os meios disponíveis para chegar ao “teatro da alegria, da catarse, da celebração, da exploração, o teatro do sentido partilhado, o teatro vivo”. Estamos longe do ascetismo que a expressão “espaço vazio” sugere e a que se costuma reduzir o teatro de Brook. A imagem aparece no gesto de nomeação inicial (qualquer espaço pode ser um palco), mas só ocasionalmente reemerge ao longo do livro: o vazio é para preencher, com muito ou pouco, condição de possibilidade e não resultado.
[Expresso-Actual, 21.06.08]
Relances sonâmbulos
Albert Cossery (1913-2008) - Nunca li uma única dessas frases escritas mensalmente, mas depois de o ter visto nesta foto postada pelo Zé Mário tenho a certeza de o ter visto: nas escadas desse mesmo hotel La Louisiane onde pelos vistos morava há décadas (e aparentava-o). Lembras-te, Zé Maria?
Klaus-Michael Grüber (1941-2008) - Também não vi um único espectáculo seu (a única vez que um veio a Portugal foi em 1992, tenho alguma desculpa). E não me lembro agora de fotos, mas há pelo menos uma imagem vívida que o Jorge me descreveu: a de espectadores enregelados apesar das mantas no estádio olímpico de Berlim deserto, com Michael König (que conheço só do Ninguém duas vezes) ao longe a correr na pista, nesse Winterreise de 1977. Nesta terra em que ninguém dá por nada, imprescindível o obituário feito por Augusto Seabra.
segunda-feira, 23 de junho de 2008
No Dice 3
Foi assim que:
1. O Alexandre citou uma frase do jogador da Alemanha Lukas Podolski (ainda antes daquele cruzamento para o Schweinsteiger), que terá dito "O futebol é como o xadrez, mas sem os dados". Ora não tenho dúvidas de que depois de comparar os dois desportos, o jogador do Bayern de Munique se preparava para dissertar sobre o espectáculo dos Nature Theater (em inglês: "Football is like chess. But No Dice..."), que certamente não perdeu quando se apresentou em Novembro passado no festival Spielart da cidade onde trabalha - mas isto foi antes de ser boçalmente interrompido por praticantes do gotcha-jornalismo.
2. A Cristina citou primeiro em alemão e depois em tradução portuguesa o cartaz que figura no romance inacabado de Kafka e que dá o nome à companhia de Nova Iorque. Comparando com a tradução inglesa que o NTO apresenta no seu site, ao mesmo tempo explicitação da origem e manifesto, é fácil ficar intrigado com a ausência da palavra "nature" no original e em português (ou com a sua presença no inglês): fala-se só de "grande Teatro de Oklahoma", e não de "great Nature Theater of Oklahoma". Onde se terá metido o "Naturteater"? Uma breve e incompleta pesquisa ensinou-me que "Teatro Natural (?) de Oklahoma" é o título do capítulo do romance onde aparece o cartaz, só que foi dado por Max Brod e não por Kafka. Mas será que na versão editada por Brod aparece "Naturteater" no texto do cartaz, ou só no nome do capítulo? E Kafka não revisto fala alguma vez desta "natureza"? Ou será que o NTO fez esse acrescento mínimo à tradução, como quem não quer a coisa (e em quem inventou que havia uma versão de 11 horas do espectáculo não me espantaria esta pequena manipulação)? O que é certo é que Benjamin, no seu Kafka (Hiena, trad. Ernesto Sampaio) de que a Cristina também falou, dá importância exactamente a essa característica do Teatro de Oklahoma:
mau actor será quem, por não estudar devidamente o seu papel, se esquece das palavras ou dos gestos que a representação requer. Para os membros da companhia de Oklahoma, porém, esse papel é a vida precedente de cada um. Daqui a "natureza" deste teatro natural. Os seus actores são seres redimidos. (p. 63)E não é No Dice, ao pôr em cena conversas telefónicas de membros da companhia com amigos e familiares, precisamente esse teatro da "vida precedente de cada um"? É aliás com estas palavras de Kelly Copper, a co-directora, que termina o artigo do New York Times citado abaixo: “'We are taking it as seriously as possible; it’s our life,' she said. 'If it is a joke, it’s a serious joke.'” Como o humor de Kafka.
quinta-feira, 12 de junho de 2008
Aos dezasseis, só de uma vez
Relâmpagos ao longe nesta nova tradução de uma novela clássica
Ivan Turguénev
O Primeiro Amor
Relógio d’Água, 2008,
trad. Nina Guerra e Filipe Guerra,
112 págs.
Depois do jantar já só restam o anfitrião e dois convidados. Combinam contar a “história do seu primeiro amor”, mas só o de Vladímir Petróvitch Voldemar “não foi nada vulgar”. É assim que Turguénev prepara os leitores da novela de 1860 O Primeiro Amor. A história de amor adolescente surge enquadrada pelos mais de vinte anos decorridos desde aquele Verão de 1833. E há outra mediação, não é a transcrição do relato de Vladímir Petróvitch naquela noite que leremos: este será adiado por duas semanas para poder ser escrito, de modo a que não saia “curto e seco, ou então longo e falso”, numa recusa da ficção de oralidade que ao mesmo tempo premedita a própria extensão da novela – entre o conto e o romance.
Vladímir, de 16 anos, apaixona-se por Zinaída, de 21, que vem morar com a mãe, uma princesa arruinada, para o anexo vizinho à casa de campo dos Voldemar. No extraordinário capítulo em que o narrador se dá conta do novo sentimento, entre uma festa inebriante e a noite passada em claro, até a meteorologia colabora. Mas o texto subverte a analogia romântica entre espírito e natureza e não nos dá uma tempestade desabando em som e fúria sobre o protagonista. Esta é “muito longínqua, nem sequer se ouviam os trovões, apenas se acendiam no céu a cada instante os relâmpagos baços, compridos, como que ramificados: nem tanto se acendiam como tremeluziam e tremulavam como a asa de uma ave moribunda.” O cliché recua até à linha do horizonte, faz-se filme mudo no ecrã da janela e culmina num prenúncio de morte.
A novela depende em absoluto do ponto de vista de Vladímir. E a beleza do texto reside na falta de perspicácia do narrador, que só no final percebe por quem Zinaída se apaixonou e muitas vezes se diz envolto em brumas e nevoeiros metafóricos, ao passo que ele próprio é de uma transparente inocência (“O meu poder de observação não enxergava um palmo adiante do nariz, e os esforços que fazia para esconder os meus sentimentos não enganavam pelos vistos ninguém”). O Primeiro Amor é este desequilíbrio magistral entre a opacidade do mundo e um sujeito que já não é aquele a quem “transparece na cara tudo o que lhe vai na alma”.
No Dice 2

I grew up on the Upper East Side, and when I was ten years old I was rich, I was an aristocrat, riding around in taxis, surrounded by comfort, and all I thought about was art and music. Now I'm thirty-six, and all I think about is money.Como Wally no filme de Louis Malle (escrito por Wallace Shawn e André Gregory), também os actores de No Dice, nos diálogos telefónicos que deram origem ao espectáculo, sabem que a vida não está fácil em Nova Iorque: audições para voice-over, uma perninha numa série televisiva russa quando se tem sorte; senão há o imobiliário, ou avaliar formulários de empregados do Walmart. [É curioso, e preocupante, que várias das companhias experimentais nova-iorquinas precisem para sobreviver do circuito europeu de festivais, um pouco como o cinema independente americano precisa de dinheiro francês.]
Wally (Wallace Shawn), My Dinner With André (1981)
Mas a ponte mais evidente que se pode estabelecer entre My Dinner With André e o espectáculo dos Nature Theater of Oklahoma tem a ver com o lugar central da conversa: pessoas falam umas com as outras e nada mais acontece, só diálogos banais, ditos espirituosos, confissões, teorias. Ali em baixo falei de responsabilidade, guiado pela frase de Godard: porque é que dizemos tanta coisa que não vale a pena? E no filme de Malle há de facto um diagnóstico negativo sobre o estado da conversa em 1981:
André - (...) people are talking in symbols - everyone is sort of floating through this fog of symbols and unconscious feelings: No one says what they're really thinking about; they don't talk to each other; because I think people are really in some sort of state of fear or panic about the world we're living in, but they don't know it, and so you just hear these odd lines of dialogue that seem to come from nowhere (...)A conversa de Wally e André atravessa e tenta dissipar este nevoeiro de símbolos (numa espécie de diálogo platónico entre dois opostos), mas pensando melhor parece-me que o NTO quis pelo contrário fixá-lo e celebrá-lo, a esse "universal cosmic murmur", sem moralismos. A peça não faz uma avaliação pessimista, ou só de raspão. Trata-se aqui da conversa como jogo, prazer do improviso, da invenção e da música particular de cada discurso, com todas as pausas e repetições e frases por acabar. É por isso que, explicaram os encenadores Pavol Liska e Kelly Copper, os actores usam auscultadores ligados a iPods durante o espectáculo, ouvindo todos a mesma montagem sonora - para que não escape nenhum "Mm hm" desta poesia que foge ao literário, ou às simplificações das rugosidades da fala que são inevitáveis em qualquer memorização ou passagem a escrito. [É interessante como os iPods, o cume da tecnologia, podem ser usados de forma barata e artesanal: no fim da primeira parte há desfasamentos de alguns segundos entre os aparelhos dos vários actores, mas seria muito mais caro fazer com um transmissor e receptores... e toda a gente tem um iPod.]
Quase no final os actores tiram as máscaras (óculos, bigode postiço, cabeleira, chapéu de pirata e de cowboy), abandonam definitivamente os sotaques inverosímeis e falam cada um com o seu espectador, em voz baixa e compenetrada. Mas este não é o momento da sinceridade e da psicologia, aquele em que os actores falam de facto connosco (to us) - o que eles dizem são as "words of encouragement" já ouvidas duas vezes durante o espectáculo, cópia de cópia, um jogo mais: "I think good things are a'comin'". E nós acreditamos, ou fingimos com eles.
P.S.: Disse ali em baixo que havia uma versão longa de 11 horas deste espectáculo, o que é uma fabulosa mentira que todos os jornais repetem e que os próprios criadores não fazem, como pude comprovar, o mínimo esforço para esclarecer (a ideia, mencionada aliás no próprio espectáculo, não deixa por isso de ser um aceno na direcção de Rivette). Vale a pena ler este artigo do New York Times onde o mito se desfaz, que tem além disso outra explicação para o título da peça e que traça ainda um retrato do casal de encenadores, com uma dinâmica muito Straub-Huillet.
P.S.2: Os belgas tg STAN montaram há uns anos My Dinner With André no teatro. Ao contrário do cinema, era muito claro que os espectadores estavam do lado de fora: diz-me quem viu que o cheiro dos vários pratos consumidos pelos dois actores era de chorar, não por mais mas por um bocadinho que fosse.
sexta-feira, 6 de junho de 2008
No Dice

Se um espectador me diz: "O filme que vi é mau", eu digo-lhe: "A culpa é tua, pois o que é que fizeste para que o diálogo fosse bom?"Lembrei-me desta citação de Godard, que costumava estar afixada numa parede da Abril em Maio, ao ver o espectáculo No Dice dos nova-iorquinos Nature Theatre of Oklahoma, em cena até ao próximo sábado no festival Alkantara ("No dice" pode-se traduzir por "Nada feito"; e o nome do grupo vem de América de Kafka). O NTO gravou 100 horas de conversas telefónicas entre membros da companhia e amigos ou familiares, e o que ouvimos é uma montagem disso - transfigurada por um estilo de representação onde cada frase é espremida até esgotar todas as suas possibilidades melodramáticas. A conversa mais banal torna-se, num primeiro momento, absurdamente cómica, mas o mais interessante é o peso que aquelas trivialidades ganham apenas por terem sido obsessivamente registadas e incluídas num espectáculo. Faz-nos olhar para as nossas conversas de todos os dias, despreocupadas e parvas, com o grau de responsabilidade que pede Godard: a culpa é nossa.
No Dice ganha ainda 10 pontos de bónus por citar longamente Céline et Julie vont en bateau de Jacques Rivette. A maneira como o grupo trabalha a duração, deixando que cada cena se instale e conquiste a sua realidade própria, por vezes até à exaustão, já me tinha feito pensar no tempo rivettiano, mas achei que eram delírios pessoais. Só que tinha havido já uma referência a uma rapariga que trabalhava numa biblioteca de magia, e também se fala de M&M's que fazem dançar (em raccord com os rebuçados do filme, que permitem entrar na casa onde o tempo parou); e eu não prestei atenção a essas pistas até ao momento em que se recria a audição de Julie fazendo-se passar por Céline, em francês e com toda a coreografia a que temos direito. Mesmo a duração do espectáculo pode ser vista como uma homenagem a Rivette e a Out 1, com uma versão longa de 11 horas e uma versão curta (a que veio a Lisboa) de apenas 4. Que não custam nada a passar, até porque há sanduíches e bebidas refrigeradas, no início e no intervalo. Como o grupo diz no texto de apresentação, "Venham pela magia, fiquem pelas sandes de fiambre!"
Four days in Denver
O casal Clinton é tão maquiavélico como se imagina; Al Gore perde peso para tentar a sua sorte; os donos do partido (Dean e Pelosi) andam às aranhas e morrem de medo dos Clintons; e Michelle Obama é que salva o dia. A cena do pré-genérico (de um episódio que só passaria na televisão por cabo) é esta:
FROM THE BLACK, we hear noises, confusing sounds. Grunting? Groaning? Sex? A massage? A workout? Weight lifting? fade in on: Skin. Sweaty skin.
A buttock? Male, female? Muscular. Hair. More hair. Definitely male. REVEAL hard-core gay sex scene between a flawless blond bodybuilder-hooker and a bald, middle-aged 300-pound man. A cell phone rings. The fat man reaches for it, hits a button to stop the ringing. Back to sex. A hotel phone starts ringing. And ringing. And ringing. The fat man picks it up and hangs up to stop the ringing. It rings again immediately. The fat man tries the same trick. And it rings again immediately. Finally, the phone wins. As the fat man talks on the phone, the hooker continues to do his job.
Fat man: Yeah … Harold, can I call you ba— … Uh-huh … I still haven’t deci— … This really isn’t a good time for— … Please. I have to— … I just— … I need— … (Desperate to get back to sex, gives up.) Okay … Yes, I’m saying yes … No, you can’t announce it yet … I’m giving you my word … I’ve got to hang up now … Okay. (Hangs up.)
Hooker (looking up from his work): Are you a superdelegate?
Mas o momento mais forte tem lugar durante o showdown a sós entre Barack e Hillary, onde aquele mostra que pode ser tão impiedoso quanto os Clintons:
How do you like them apples?Barack: I don’t care how many ballots you want to put us through. I don’t care if this convention takes two weeks. I came here to win, and that’s what I’m going to do. Nothing will make me back down. Nothing will make me take the number-two spot. Nothing. You’re up against someone who is prepared to do as much damage as you are. (beat) And the press is gonna blame you for all of it.
Alexandra,
quarta-feira, 16 de abril de 2008
Le Veilleur 2
Voyez cependant dans Kapo, le plan où Riva se suicide, en se jetant sur les barbelés électrifiés : l’homme qui décide, à ce moment, de faire un travelling avant pour recadrer le cadavre en contre-plongée, en prenant soin d’inscrire exactement la main levée dans un angle de son cadrage final, cet homme-là n’a droit qu’au plus profond mépris.Como diz Serge Daney em Persévérance, não é preciso ter visto Kapo para de imediato concordar com Rivette, tal é a sua capacidade de nos oferecer, indiscutível, a visão desse movimento de câmara.
Em Le Veilleur, curiosamente, há uma descrição do que pode ser a magia de um plano que é o oposto do desprezo a que Pontecorvo foi inapelavelmente condenado. Surge na última cena de Peaux de Vaches (1988) de Patricia Mazuy e vale a pena citar na totalidade, ainda que com as hesitações da fala e mesmo com os erros de transcrição que certamente haverá:
Ça m’arrive assez souvent, enfin, de rêver que je suis au cinéma en train de voir un film, avec des moments… J’ai vu des choses vraiment magnifiques, mais là je me réveillais et puis je ne pourrais pas le revoir, mais là j’ai pu le revoir, c’était effectivement sur l’écran, je n’avais pas rêvé.
C’est la scène, la dernière scène, où Jean-François [Stévenin] […] part sur la route (ça c’est un premier plan dans mon souvenir) et il y a un deuxième plan où on voit Sandrine Bonnaire courir vers lui, le rattraper, essayer de l’arrêter, et continuer à marcher tous les deux assez longtemps, en parlant, jusqu’au moment où ils tombent dans les bras l’un de l’autre, où ils s’embrassent, où Jean-François se tourne vers Sandrine Bonnaire et lui dit : « Pars avec moi avec la petite. » Tout ça c’est fait en un seul plan, à la main, je crois, un peu bousculé, mais sur le mouvement. Là encore c’est très beau mais la caméra accompagne les personnages.
Là on passe brusquement sur un gros plan de Jean-François – d’ailleurs la première fois que j’ai vu le film ce gros plan m’a choqué, parce que c’est coupé quand même ce plan très long, magnifique et tout – qui est purement son regard sur Sandrine Bonnaire après avoir posé la question. C’est un plan assez court, on a aussitôt après le contrechamp, le gros plan de Sandrine Bonnaire, qui ne répond pas, qui le regarde. Et puis son regard commence à bouger, elle-même commence à bouger, et là on comprend en son mouvement – elle va à la place où était Jean-François mais il n’est plus là, parti. La caméra continue à la suivre, la caméra est derrière elle, on la suit et on fait tout un mouvement derrière elle et on voit Jean-François qui s’éloigne sur la route, qui arrête un camion qui vient vers nous et qui monte dans le camion – tout ça à l’intérieur de ce plan qui est parti sur le visage d’elle.
La réaction de Jean-François sur le fait qu’elle ne répondait pas à sa demande, le fait qu’il parte, tout ça s’est passé off, on l’a uniquement sur le visage de Sandrine Bonnaire et son mouvement, et c’est fini, il est parti, il s’en va : c’est pratiquement le dernier plan du film. Ce plan, je l’ai trouvé vraiment magique. C’est très bien filmé et en même temps faisant passer l’émotion vraiment avec une invention de la caméra… Je crois qu’il faut être cinéaste pour le voir.
Le Veilleur 1
O diálogo, até nos seus silêncios, é fascinante, mas há também a destacar um inteligente trabalho de montagem dos excertos dos filmes. Um exemplo: quando Rivette diz que não quer, despudoradamente, violar o actor, penetrar na sua intimidade, Claire Denis introduz como possível contradição a cena de L'Amour fou em que Jean-Pierre Kalfon rasga as roupas com uma lâmina e depois com uma tesoura. Outro: não é na altura em que Rivette fala da música de Piazzola a acompanhar o percurso de motocicleta de Pascale Ogier em Le Pont du Nord, olhando para as estátuas de leões, que vemos essa sequência; ela aparecerá mais tarde, quando Rivette compara a novidade da Nouvelle Vague ao Impressionismo. Porquê? Só pode ser porque a sequência dos leões é antecedida de um plano de Bulle Ogier com o metro em baixo que inegavelmente cita La Gare Saint-Lazare de Manet:

terça-feira, 15 de abril de 2008
Emitir comunicados é preciso
[...] o problema põe-se, por exemplo, quando é necessário assinar um texto comum, internacional. Cada vez que há um encontro entre Portugal e o Brasil, passamos a vida a fazer compromissos para escolher as palavras.e o último artigo de Ruy Tavares:
[...] se os respectivos governos quisessem emitir um comunicado sobre o evento ["Letras em Lisboa"], teriam de emitir dois comunicados - um em cada ortografia.Trata-se portanto de facilitar a vida aos burocratas. Já podiam ter dito.
* Gostei de que, na chamada de capa, se escrevesse "Seixas dos Santos" em vez de "Seixas da Costa". É bom sinal quando um jornalista troca o nome de um embaixador pelo de um cineasta. O contrário seria bem mais aborrecido. E burocrático.
quinta-feira, 3 de abril de 2008
Anónima acupunctura
Concordo em absoluto que há pessoas que percebem muito mais disto do que nós, Ivan, mas é daquelas coisas que nos diz respeito a todos e provavelmente não devia ser deixada só para especialistas. Aliás, parece-me que entre os cronistas mais destacados pouca gente se contém: do Rui Tavares a Vital Moreira, passando por VPV, são raros os que resistem. Eu já pensava ter arrumado mais ou menos a coisa na cabeça depois de escrever isto, isto e isto, mas os teus posts levaram-me a voltar ao assunto. Até tive paciência para ouvir as duas partes do debate que houve em Fevereiro na Casa Fernando Pessoa, principalmente para saber o que dizia Ivo Castro, que foi meu professor - e aproveitei para ver os defensores do acordo, Agualusa e Malaca Casteleiro, a serem um reduzido ao silêncio e o outro à incapacidade de argumentação.
Depois disto tudo aproximo-me progressivamente de uma atitude zen - ou, como diz Ivo Castro, jesuítica, aproveitando as desgraças o melhor possível (embora antes ele próprio tivesse dito que o acordo tinha desvantagens mas não era provavelmente uma desgraça).
Sobre a fraqueza que apontas aos meus argumentos - julgo que os do último post, espero que não tenhas perdido tempo a ler os anteriores - gostava de dizer uma ou duas coisas. Primeiro, as pobres consoantes mudas. Não sei que consequências para a pronúncia pode ter no futuro o seu abandono; o que quero rebater é o argumento dos defensores do acordo actual segundo o qual essas consoantes são apenas etimológicas: ora não são, e o critério do acordo de 1945 para as conservar foi precisamente a sua função fonética (abrir a vogal anterior). A ortografia é um compromisso possível (e negociável de tempos a tempos) entre a maneira como dizemos as palavras e a sua história, entre fonética e etimologia - por isso não escrevemos nem com o alfabeto fonético nem em latim. Um dos problemas deste acordo é impor um critério fonético para apagar consoantes que até desempenham um papel (indirecto) na pronúncia, ao mesmo tempo que mantém o h inicial (e puramente etimológico) em palavras como "húmido", "homem", "hesitar", etc. Dás o exemplo de "inflacionário", onde a pronúncia do a aberto não é assinalada; mas as vogais abertas que não são acentuadas são a excepção no português europeu, gerando até casos de hipercorrecção (gente que defende, sem razão, que se deve dizer "mestrado" com o e fechado, por exemplo). Com o acordo estas excepções aumentam muitíssimo, e sabendo da tendência do português europeu para fechar as vogais átonas não me admira que venhamos a ouvir que se deve dizer "adução" em vez de "adopção". E há obviamente a excepção contrária, ou seja, vogais que não abrimos apesar de terem à frente uma consoante muda: actriz, actual... aqui conservadas pelo acordo de 1945 por questões de consistência com outras palavras da mesma família onde se abre a vogal ("Óptimo" tem o p, embora com o acento não precisasse, por causa de "optimista". Teve aliás graça quando Carlos Reis, no seu artigo recente no Público, disse que até os italianos, herdeiros directos do latim, se viram livres do p em "ottimo" - sem pensar porque é que ali estavam dois tt e não um...) A ortografia é portanto um equilíbrio precário, com excepções e incongruências inevitáveis. Este acordo aumenta-as de forma imprevisível, pelo menos para nós que jogamos com as palavras de que a custo nos lembramos para exemplos. E sim, faz-me confusão escrever "espectador" e "espetáculo", "Egito" e "egípcio", "apocalítico" e "apocalipse", "infeção" e (para mim) "infeccioso", "caráter" e (para outros) "característica"...
Este "para mim" e "para outros" tem a ver com o maior problema do acordo, que é a facultatividade: não só vai continuar a haver diferenças inconciliáveis entre a escrita em Portugal e no Brasil (fenómeno/fenômeno, oxigénio/oxigênio, corrupto (cá) / corruto (lá), receção (cá) / recepção (lá)) como se abre espaço para a dupla grafia no mesmo país: assim, em Portugal, uns escreverão "sumptuoso" outros "suntuoso", uns "sector" outros "setor"... conforme pronunciem ou não a consoante (já agora e ao contrário do que eu tinha dito: "facto" não é um destes casos, já que no português europeu o c é sempre pronunciado). E no Brasil, onde se escreve "Antônio", há zonas onde se diz "António", portanto essa escrita também será possível. Ora a ortografia serve precisamente para que não haja este tipo de variação: existe num nível de abstracção para lá dos vários sotaques e pronúncias, senão uns escreviam "vaca" e outros "baca". Ivo Castro propõe que se criem sub-ortografias em cada país, sem facultatividade, que venham resolver este problema criado pelo acordo - talvez resulte, mas é um remendo para limitar os danos de um facto consumado.
Gastei o post quase todo nas questões "científicas", que se calhar nem são as mais importantes. É que não consigo ver quais são as grandes vantagens de uma semi-unificação ortográfica. Como já disse num dos posts anteriores, não é a grafia que faz difícil o Guimarães Rosa. Nem preciso de acordo (que aliás nisso não me ajudaria) para saber de que trata a canção "Cotidiano". Enquanto falarmos a mesma língua havemos de nos perceber o melhor possível, sabendo que é no léxico e na sintaxe, e não na ortografia, que estão as maiores diferenças. Estar a corrigir os livros todos, seja em seis anos ou em seis dias, representa um custo e um esforço insanos para resultados tão modestos. Durante uns tempos vamos andar todos a dar imensos erros ortográficos, e eu a irritar-me ainda mais ao ler o jornal ou a corrigir quem ainda escreve "excepção" e quem acha que agora se escreve "fato". Falei do custo em árvores. Estavam em vez da floresta.
Resumindo, este acordo:
- tem um objectivo inútil, ou quase, porque não é a ortografia que dificulta a comunicação entre os falantes do português
- nem sequer cumpre aquilo a que se propunha, já que continua a haver várias diferenças entre as grafias portuguesa e brasileira (estes dois pontos fazem dele um desperdício de recursos que podiam ser aproveitados para facilitar a circulação dos livros entre os países da "última flor do Lácio" - sempre regada a água do luso)
- tem falhas científicas, quer ao argumentar de forma inconsistente para excluir as consoantes mudas, quer ao abrir espaço para duplas grafias no mesmo país, contrariando a própria noção de ortografia
- já me fez perder muito tempo, mas confesso que até gosto destas discussões chatas que costumam esvaziar os lugares à minha volta
[Quanto ao trema: não me importava nada que ainda existisse, mas graças ao acordo os brasileiros é que vão ficar sem ele.]
Praga, 1968
Interrogator We're supposed to know what's going on inside people. That's why it's the Ministry of the Interior.Tom Stoppard, Rock 'n' Roll
quinta-feira, 27 de março de 2008
Carpe diem
Mas queria chamar a atenção para um pormenor: JMF diz que "os métodos do professor acabaram por criar uma tensão de que resultou o suicídio de um dos seus alunos"; Rui Tavares fala do "filme em que um execrável colégio interno levava um dos seus alunos ao suicídio". Ora, nem o Rui nem JMF devem ter visto o filme mais de dez vezes, ao contrário de todas as pessoas nascidas entre 1976 e 1980. Cabe-me portanto informá-los de que a culpa não é nem do professor nem do colégio: é do pai, que não deixa o filho ser actor. Falta rigor na imprensa de referência.
Voilà 2
Não sou eu que vou argumentar conta a "superioridade do português do Brasil": não por concordar ou discordar, a afirmação inversa é que me soa ridícula. É óbvio que estava só, como se costuma dizer, a embirrar, embora o sintagma "ótimo ator" me pareça claramente uma provocação - porque não, sei lá, "excelente intérprete"?
E acho que tenho algumas razões para esta minha embirração contra o acordo, como o facto por exemplo de se escrever "espetáculo" sem c e "espectador" com, perdendo-se não só a ligação etimológica entre as duas (como já acontece no português brasileiro) mas também a indicação gráfica para abrir o e em "espectáculo" (coisa de que, por causa das fonéticas respectivas, o português brasileiro não precisa e o europeu sim). Acho finalmente que é tudo uma perda de tempo e dinheiro (e as árvores, as árvores), sem uma base científica credível e sem ganhos evidentes para os leitores.
quarta-feira, 26 de março de 2008
Obrigado
Voilà
Em apenas dois parágrafos temos "contrafação", "ótimo", "ator", "abstração", "atores". A sensação é estranha (e não duvido de que um dia se entranhe). Eis um texto com a sintaxe e semântica do português europeu cuja leitura é sobressaltada de vez em quando por uma gralha que não existe. São as mesmas palavras mas não bem as mesmas. Como as notas falsas de que o filme comentado trata? Seria demasiado fácil. Não, antes como nos filmes os mortos-vivos ou extraterrestres que andam no meio das pessoas normais e só se distinguem por um pequeno pormenor: não sangram, ou têm os olhos vermelhos, ou pele a mais atrás das orelhas... (O Žižek fala disto para explicar o objet petit a lacaniano, mas eu ainda não percebi nem isso agora vem ao caso.)
O engraçado é que o Ivan Nunes escreve "fato" em vez de "facto", embora a maior parte (?) dos falantes de português europeu pronuncie o c (como em "espectadores", que se escreve assim tanto cá como no Brasil). Trata-se portanto de uma palavra que em princípio ficaria na mesma, e este "em princípio" é um dos problemas deste acordo: para se fazer a revisão de um texto vai ser preciso perguntar ao autor como é que ele pronuncia determinadas palavras. A menos que o Ivan esteja a seguir a norma brasileira, onde "facto" se escreve e continuará a escrever "fato"... mas não, mais abaixo está "oxigénio" e não "oxigênio".
Enfim, como às vezes me calha corrigir textos alheios, já sei que vai sobrar para mim.
segunda-feira, 24 de março de 2008
La Belle Noiseuse

Esta forma de esvaziar os actores deve frequentemente revoltá-los, mas há um tempo para os escutar, outro para os fazer calar.
Jacques Rivette, "Carta sobre Rossellini", Cahiers du Cinéma, Abril 1955
Constance Dumas, na Bande des Quatre, diz que o teatro é uma série de provas/provações ("épreuves"). Assim o cinema visto no cinema: é inesquecível a experiência das quatro horas da Belle Noiseuse (ainda bem que não achei que ter visto em dvd no portátil bastava... Agora só volta a passar na sala pequena, o que não será bem a mesma coisa).
Se, como diz Alain Bergala, o Mépris de Godard é um remake de Viaggio in Italia, então a Belle Noiseuse é a versão de Rivette do filme de Rossellini, com a crise de dois casais em vez de um. E isto sem esquecer que entretanto houve o Mépris... Piccoli está nos dois filmes franceses para o demonstrar. Veja-se a semelhança de motivação para a ruptura do casal (Bardot/Piccoli num caso, Béart/Bursztein no outro): o sacrifício da mulher pelo artista enquanto jovem. Ou pense-se no tema do palimpsesto, as telas que se rasuram e sobrepõem como os filmes. Como diz Jane Birkin, referindo-se à segunda versão do quadro "La Belle Noiseuse", "substituiste a minha cara por um par de nádegas" - e não é o rabo de Bardot que em Godard toma o lugar do rosto da Bergman, se compararmos o início do Mépris com o da Viagem? Quanto ao Mediterrâneo dos dois primeiros filmes, Rivette troca-o pela floresta - é de resto Piccoli/Frenhofer quem compara o som do mar ao das árvores, primordial como a radiação fóssil que vem dos confins do universo.
Mas é entre Rivette e Rossellini que a relação é mais interessante: para a ver, basta acreditar que ela existe. Talvez começando por notar a influência de Matisse na pintura de Frenhofer/Bernard Dufour, Matisse que estava na cabeça de Rivette ao ver a Viagem em Itália. Ou pensando na cena de comédia que é a do regresso nocturno de George Sanders, vindo de Capri, à casa do tio Homer, com as luzes que se vão acendendo e apagando à medida que se atravessam as divisões: Piccoli repetir-lhe-á os gestos uma noite, mas, ao contrário de Sanders, acabará por ir dormir ao quarto de Jane Birkin.
No entanto, é o momento da revelação o que mais aproxima os dois filmes: a reacção de Ingrid Bergman em Pompeia ao casal surpreendido pelo vulcão é a mesma da de Emmanuelle Béart (ou de Jane Birkin) perante o quadro concluído - um estremecimento perante a verdade que o corpo esconde, uma verdade que é morte (Birkin desenha uma cruz nas costas da tela) ou, por outras palavras, reflexão sobre o cinema (a imagem é um sudário, diz Bazin).
Sim, a pintura está aqui em vez do cinema, como noutros casos o teatro; mas a relação do pintor com o seu modelo não é automaticamente, neste que é o menos rivettiano dos seus filmes, a de Rivette com Béart - o jogo de espelhos, ampliado pela duplicação dos casais, é mais subtil e perverso, e pode ficcionar também o par Rossellini/Bergman (ou Godard/Bardot, ou Godard/Karina...). La Belle Noiseuse, mais do que um remake, é um making of.
P.S.1: Ainda os títulos de filmes futuros. O livro para adolescentes que escreveu a personagem de Emmanuelle Béart chama-se Le Secret défense aux yeux d'or, muito antes de Rivette pensar em fazer o Secret Défense... Quanto aos "olhos de ouro", vem de La Fille aux yeux d'or, romance de Balzac que encerra a trilogia da Histoire des Treize (tendo Rivette aproveitado o prefácio para Out 1 e adaptado o segundo romance, La Duchesse de Langeais, para o seu último filme).
P.S.2: Ainda o Ágon. ZM, acreditas que a música do genérico do filme é mesmo a do ballet de Stravinsky de que falavas?
sexta-feira, 21 de março de 2008
Aniversário
Sem brincadeiras: obrigado aos que ainda se dão ao trabalho de passarem por aqui. São a alegria desta fábrica tantas vezes em greve.
VPV versus KJV
Durante séculos não ocorreu a nenhum cristão a ideia sacrílega de lhe alterar uma letra e esse respeito passou inevitavelmente para a vida profana. (Vasco Pulido Valente, Público, 21/03/08)
Encontrei aqui um fac-simile da King James Bible (KJV) de 1611. Não é preciso ir mais longe do que o segundo versículo para encontrar discrepâncias entre a grafia utilizada e a actual; mais: o próprio texto usa variantes ("Let there be light"e "Let there bee lights" nesta mesma primeira página do Génesis).
Isto para dizer que a crónica de hoje de Pulido Valente é um disparate pegado. Como é que se pode dizer, sem corar, que a KJV fixa a grafia inglesa? Que contribua para o estabelecimento de um dialecto inglês padrão não duvido, só que a ortografia é outra coisa. Nunca tinha lido a KJV com a grafia original, mas bastava-me ter olhado para as reproduções das primeiras edições de Shakespeare (o First Folio é de 1623) para ter a certeza de que a norma gráfica não era a maior preocupação do séc. XVII. Em Portugal como em Inglaterra, estas questões surgem no Iluminismo, altura em que se publicam gramáticas e dicionários (não necessariamente os primeiros, mas os mais influentes - e é o dicionário do Dr. Johnson de 1755 que mais contribui para a fixação da grafia britânica). Ao "durante séculos" de VPV deve acrescentar-se em rodapé "descontando o primeiro século e meio".
Mas não é só este anacronismo, sobre o qual toda a crónica se alicerça, que não bate certo: a própria ideia central de que o inglês "se escreve, com ligeiras variantes, da mesma maneira em metade do mundo", por oposição ao português, não resiste ao exame mais superficial. Já há uns tempos tinha linkado este artigo da Wikipédia sobre as diferenças gráficas entre o inglês britânico e o americano (cuja ortografia é fixada pelo Webster de 1828), onde se vê que são perfeitamente comparáveis às que separam o português europeu do brasileiro.
A partir daí a comparação dos cânones literários em português e inglês é apenas tonta (com a aberração que é chamar "nativista" a Guimarães Rosa), mais uma glosa do tema preferido de VPV, segundo o qual "os portugueses não prestam, os ingleses é que é" (e que normalmente tem graça). Mas acho que nunca como hoje me chocou tanto a torção da realidade em função desse juízo a priori. Ainda por cima quando o exemplo inglês é um óptimo argumento contra o erro científico que é este acordo ortográfico - ali nunca foram precisas uniformizações transatlânticas.
Pronto, já estou mais calmo.
terça-feira, 18 de março de 2008
História de títulos
Sim, lembrava-me que se dizia "Belle Noiseuse" na Bande des Quatre, anunciando o próximo filme; e reparei ao vê-lo na Cinemateca que, no Duelle, se fala na árvore do "Noroït", o vento de noroeste que dá o título ao projecto seguinte. Claro que no Noroït nunca se fala no nome do vento, embora haja supostamente um tesouro na direcção nor-noroeste (o que remete para esta linhagem). No Duelle há, como em Ne touchez pas la hache, outra near miss, desta vez não por supressão mas por homofonia: junto à árvore do Noroït terá lugar um "duelo" (duel, e não duelle, que quer dizer "dual"). E também tenho ideia que no Va Savoir se diz "allez savoir"!
Enfim, para a minha teoria que cai "par terre", resta a consolação de tomar a citação do "Temps déborde" ela própria como uma regra: contradiz-se a regra do Renoir uma vez, e contradiz-se também uma vez a regra que diz que se deve contradizê-la.
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008
Obama for America
O plot twist vem no Guardian de hoje: como sempre que pensamos ver a vida a imitar a arte, parece que a personagem do jovem congressista Matt Santos se inspirou num jovem político do Illinois (ainda nem sequer senador) que acabara de fazer um grande discurso na convenção democrata...
O criador da série, Aaron Sorkin, abandonou-a no fim da quarta temporada - mas a sexta e a sétima (como estas coincidências ilustram) estão muito longe de ser um salto por cima do tubarão (uma opinião offshore que só se explica sabendo do transtorno extremo que o seu autor atravessava na altura).

