sexta-feira, 6 de junho de 2008

No Dice


Se um espectador me diz: "O filme que vi é mau", eu digo-lhe: "A culpa é tua, pois o que é que fizeste para que o diálogo fosse bom?"
Lembrei-me desta citação de Godard, que costumava estar afixada numa parede da Abril em Maio, ao ver o espectáculo No Dice dos nova-iorquinos Nature Theatre of Oklahoma, em cena até ao próximo sábado no festival Alkantara ("No dice" pode-se traduzir por "Nada feito"; e o nome do grupo vem de América de Kafka). O NTO gravou 100 horas de conversas telefónicas entre membros da companhia e amigos ou familiares, e o que ouvimos é uma montagem disso - transfigurada por um estilo de representação onde cada frase é espremida até esgotar todas as suas possibilidades melodramáticas. A conversa mais banal torna-se, num primeiro momento, absurdamente cómica, mas o mais interessante é o peso que aquelas trivialidades ganham apenas por terem sido obsessivamente registadas e incluídas num espectáculo. Faz-nos olhar para as nossas conversas de todos os dias, despreocupadas e parvas, com o grau de responsabilidade que pede Godard: a culpa é nossa.
No Dice ganha ainda 10 pontos de bónus por citar longamente Céline et Julie vont en bateau de Jacques Rivette. A maneira como o grupo trabalha a duração, deixando que cada cena se instale e conquiste a sua realidade própria, por vezes até à exaustão, já me tinha feito pensar no tempo rivettiano, mas achei que eram delírios pessoais. Só que tinha havido já uma referência a uma rapariga que trabalhava numa biblioteca de magia, e também se fala de M&M's que fazem dançar (em raccord com os rebuçados do filme, que permitem entrar na casa onde o tempo parou); e eu não prestei atenção a essas pistas até ao momento em que se recria a audição de Julie fazendo-se passar por Céline, em francês e com toda a coreografia a que temos direito. Mesmo a duração do espectáculo pode ser vista como uma homenagem a Rivette e a Out 1, com uma versão longa de 11 horas e uma versão curta (a que veio a Lisboa) de apenas 4. Que não custam nada a passar, até porque há sanduíches e bebidas refrigeradas, no início e no intervalo. Como o grupo diz no texto de apresentação, "Venham pela magia, fiquem pelas sandes de fiambre!"

Four days in Denver

Antes ainda do suspiro de alívio que foi a confirmação de Obama como nomeado dos Democratas, li um dos textos mais divertidos e inquietantes desta campanha: este argumento escrito por Lawrence O'Donnell Jr (um dos guionistas - tinha que ser - do West Wing), onde se ficciona o que todos temiam, uma Convenção Democrata ainda sem vencedor definido. Cheguei lá através do imprescindível Andrew Sullivan, onde vou buscar a minha dose diária de Obamaismo.Agora já tem, felizmente, um bocadinho menos graça, porque já se sabe que não é isto que vai acontecer.
O casal Clinton é tão maquiavélico como se imagina; Al Gore perde peso para tentar a sua sorte; os donos do partido (Dean e Pelosi) andam às aranhas e morrem de medo dos Clintons; e Michelle Obama é que salva o dia. A cena do pré-genérico (de um episódio que só passaria na televisão por cabo) é esta:

FROM THE BLACK, we hear noises, confusing sounds. Grunting? Groaning? Sex? A massage? A workout? Weight lifting? fade in on: Skin. Sweaty skin.

A buttock? Male, female? Muscular. Hair. More hair. Definitely male. REVEAL hard-core gay sex scene between a flawless blond bodybuilder-hooker and a bald, middle-aged 300-pound man. A cell phone rings. The fat man reaches for it, hits a button to stop the ringing. Back to sex. A hotel phone starts ringing. And ringing. And ringing. The fat man picks it up and hangs up to stop the ringing. It rings again immediately. The fat man tries the same trick. And it rings again immediately. Finally, the phone wins. As the fat man talks on the phone, the hooker continues to do his job.

Fat man: Yeah … Harold, can I call you ba— … Uh-huh … I still haven’t deci— … This really isn’t a good time for— … Please. I have to— … I just— … I need— … (Desperate to get back to sex, gives up.) Okay … Yes, I’m saying yes … No, you can’t announce it yet … I’m giving you my word … I’ve got to hang up now … Okay. (Hangs up.)
Hooker (looking up from his work): Are you a superdelegate?

Mas o momento mais forte tem lugar durante o showdown a sós entre Barack e Hillary, onde aquele mostra que pode ser tão impiedoso quanto os Clintons:

Barack: I don’t care how many ballots you want to put us through. I don’t care if this convention takes two weeks. I came here to win, and that’s what I’m going to do. Nothing will make me back down. Nothing will make me take the number-two spot. Nothing. You’re up against someone who is prepared to do as much damage as you are. (beat) And the press is gonna blame you for all of it.

How do you like them apples?

Alexandra,

A mim sempre me pareceu que a cena do bosque do North by Northwest,

a tal que a MGM queria cortar, lembrava muito este quadro do Magritte (Carte Blanche):

E o traje da cavaleira não está assim tão distante do figurino da Eva Marie Saint, chapéu incluído!

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Le Veilleur 2

É bem conhecido o texto de Rivette sobre Kapo de Pontecorvo, publicado nos Cahiers du Cinéma em 1961. Chama-se "De l'abjection" e torna palpável o lema segundo o qual o travelling é uma questão de moral:
Voyez cependant dans Kapo, le plan où Riva se suicide, en se jetant sur les barbelés électrifiés : l’homme qui décide, à ce moment, de faire un travelling avant pour recadrer le cadavre en contre-plongée, en prenant soin d’inscrire exactement la main levée dans un angle de son cadrage final, cet homme-là n’a droit qu’au plus profond mépris.
Como diz Serge Daney em Persévérance, não é preciso ter visto Kapo para de imediato concordar com Rivette, tal é a sua capacidade de nos oferecer, indiscutível, a visão desse movimento de câmara.
Em
Le Veilleur, curiosamente, há uma descrição do que pode ser a magia de um plano que é o oposto do desprezo a que Pontecorvo foi inapelavelmente condenado. Surge na última cena de Peaux de Vaches (1988) de Patricia Mazuy e vale a pena citar na totalidade, ainda que com as hesitações da fala e mesmo com os erros de transcrição que certamente haverá:
Ça m’arrive assez souvent, enfin, de rêver que je suis au cinéma en train de voir un film, avec des moments… J’ai vu des choses vraiment magnifiques, mais là je me réveillais et puis je ne pourrais pas le revoir, mais là j’ai pu le revoir, c’était effectivement sur l’écran, je n’avais pas rêvé.
C’est la scène, la dernière scène, où Jean-François [Stévenin] […] part sur la route (ça c’est un premier plan dans mon souvenir) et il y a un deuxième plan où on voit Sandrine Bonnaire courir vers lui, le rattraper, essayer de l’arrêter, et continuer à marcher tous les deux assez longtemps, en parlant, jusqu’au moment où ils tombent dans les bras l’un de l’autre, où ils s’embrassent, où Jean-François se tourne vers Sandrine Bonnaire et lui dit : « Pars avec moi avec la petite. » Tout ça c’est fait en un seul plan, à la main, je crois, un peu bousculé, mais sur le mouvement. Là encore c’est très beau mais la caméra accompagne les personnages.
Là on passe brusquement sur un gros plan de Jean-François – d’ailleurs la première fois que j’ai vu le film ce gros plan m’a choqué, parce que c’est coupé quand même ce plan très long, magnifique et tout – qui est purement son regard sur Sandrine Bonnaire après avoir posé la question. C’est un plan assez court, on a aussitôt après le contrechamp, le gros plan de Sandrine Bonnaire, qui ne répond pas, qui le regarde. Et puis son regard commence à bouger, elle-même commence à bouger, et là on comprend en son mouvement – elle va à la place où était Jean-François mais il n’est plus là, parti. La caméra continue à la suivre, la caméra est derrière elle, on la suit et on fait tout un mouvement derrière elle et on voit Jean-François qui s’éloigne sur la route, qui arrête un camion qui vient vers nous et qui monte dans le camion – tout ça à l’intérieur de ce plan qui est parti sur le visage d’elle.
La réaction de Jean-François sur le fait qu’elle ne répondait pas à sa demande, le fait qu’il parte, tout ça s’est passé off, on l’a uniquement sur le visage de Sandrine Bonnaire et son mouvement, et c’est fini, il est parti, il s’en va : c’est pratiquement le dernier plan du film. Ce plan, je l’ai trouvé vraiment magique. C’est très bien filmé et en même temps faisant passer l’émotion vraiment avec une invention de la caméra… Je crois qu’il faut être cinéaste pour le voir.

Le Veilleur 1

Passou a semana passada na Cinemateca - e, não há fome que não dê em fartura, acaba de sair em dvd como extra da edição da Arte de La Belle Noiseuse - o raro e lindíssimo filme que Claire Denis dedicou a Jacques Rivette, no contexto da série Cinéma, de notre temps. Jacques Rivette, le veilleur é fundamentalmente um diálogo entre o cineasta e o crítico Serge Daney, uma deambulação (no pensamento e na cidade) divida em duas partes, O Dia e A Noite (as duas forças - a lua e o sol - de cujo confronto nasce o cinema de Rivette). É o encontro de duas inteligências: Rivette mais esquivo, sorumbático, felino, por vezes teorizante, Daney arriscando interpretações, inventando-as ao ritmo da conversa, podendo ser ao mesmo tempo perverso e sem maldade.
O diálogo, até nos seus silêncios, é fascinante, mas há também a destacar um inteligente trabalho de montagem dos excertos dos filmes. Um exemplo: quando Rivette diz que não quer, despudoradamente, violar o actor, penetrar na sua intimidade, Claire Denis introduz como possível contradição a cena de L'Amour fou em que Jean-Pierre Kalfon rasga as roupas com uma lâmina e depois com uma tesoura. Outro: não é na altura em que Rivette fala da música de Piazzola a acompanhar o percurso de motocicleta de Pascale Ogier em Le Pont du Nord, olhando para as estátuas de leões, que vemos essa sequência; ela aparecerá mais tarde, quando Rivette compara a novidade da Nouvelle Vague ao Impressionismo. Porquê? Só pode ser porque a sequência dos leões é antecedida de um plano de Bulle Ogier com o metro em baixo que inegavelmente cita La Gare Saint-Lazare de Manet:

terça-feira, 15 de abril de 2008

Emitir comunicados é preciso

Até há dois dias, ainda não tinha percebido para que servia exactamente o acordo ortográfico, mas houve felizmente a entrevista do embaixador Seixas da Costa* no Público:
[...] o problema põe-se, por exemplo, quando é necessário assinar um texto comum, internacional. Cada vez que há um encontro entre Portugal e o Brasil, passamos a vida a fazer compromissos para escolher as palavras.
e o último artigo de Ruy Tavares:
[...] se os respectivos governos quisessem emitir um comunicado sobre o evento ["Letras em Lisboa"], teriam de emitir dois comunicados - um em cada ortografia.
Trata-se portanto de facilitar a vida aos burocratas. Já podiam ter dito.


* Gostei de que, na chamada de capa, se escrevesse "Seixas dos Santos" em vez de "Seixas da Costa". É bom sinal quando um jornalista troca o nome de um embaixador pelo de um cineasta. O contrário seria bem mais aborrecido. E burocrático.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Anónima acupunctura

[Sorry, é outra vez sobre aquele assunto que eu disse que ia evitar. Pus um bocadinho a bold ali em baixo para quem ainda só estiver quase farto desta conversa.]
Concordo em absoluto que há pessoas que percebem muito mais disto do que nós, Ivan, mas é daquelas coisas que nos diz respeito a todos e provavelmente não devia ser deixada só para especialistas. Aliás, parece-me que entre os cronistas mais destacados pouca gente se contém: do Rui Tavares a Vital Moreira, passando por VPV, são raros os que resistem. Eu já pensava ter arrumado mais ou menos a coisa na cabeça depois de escrever isto, isto e isto, mas os teus posts levaram-me a voltar ao assunto. Até tive paciência para ouvir as duas partes do debate que houve em Fevereiro na Casa Fernando Pessoa, principalmente para saber o que dizia Ivo Castro, que foi meu professor - e aproveitei para ver os defensores do acordo, Agualusa e Malaca Casteleiro, a serem um reduzido ao silêncio e o outro à incapacidade de argumentação.
Depois disto tudo aproximo-me progressivamente de uma atitude zen - ou, como diz Ivo Castro, jesuítica, aproveitando as desgraças o melhor possível (embora antes ele próprio tivesse dito que o acordo tinha desvantagens mas não era provavelmente uma desgraça).
Sobre a fraqueza que apontas aos meus argumentos - julgo que os do último post, espero que não tenhas perdido tempo a ler os anteriores - gostava de dizer uma ou duas coisas. Primeiro, as pobres consoantes mudas. Não sei que consequências para a pronúncia pode ter no futuro o seu abandono; o que quero rebater é o argumento dos defensores do acordo actual segundo o qual essas consoantes são apenas etimológicas: ora não são, e o critério do acordo de 1945 para as conservar foi precisamente a sua função fonética (abrir a vogal anterior). A ortografia é um compromisso possível (e negociável de tempos a tempos) entre a maneira como dizemos as palavras e a sua história, entre fonética e etimologia - por isso não escrevemos nem com o alfabeto fonético nem em latim. Um dos problemas deste acordo é impor um critério fonético para apagar consoantes que até desempenham um papel (indirecto) na pronúncia, ao mesmo tempo que mantém o h inicial (e puramente etimológico) em palavras como "húmido", "homem", "hesitar", etc. Dás o exemplo de "inflacionário", onde a pronúncia do a aberto não é assinalada; mas as vogais abertas que não são acentuadas são a excepção no português europeu, gerando até casos de hipercorrecção (gente que defende, sem razão, que se deve dizer "mestrado" com o e fechado, por exemplo). Com o acordo estas excepções aumentam muitíssimo, e sabendo da tendência do português europeu para fechar as vogais átonas não me admira que venhamos a ouvir que se deve dizer "adução" em vez de "adopção". E há obviamente a excepção contrária, ou seja, vogais que não abrimos apesar de terem à frente uma consoante muda: actriz, actual... aqui conservadas pelo acordo de 1945 por questões de consistência com outras palavras da mesma família onde se abre a vogal ("Óptimo" tem o p, embora com o acento não precisasse, por causa de "optimista". Teve aliás graça quando Carlos Reis, no seu artigo recente no Público, disse que até os italianos, herdeiros directos do latim, se viram livres do p em "ottimo" - sem pensar porque é que ali estavam dois tt e não um...) A ortografia é portanto um equilíbrio precário, com excepções e incongruências inevitáveis. Este acordo aumenta-as de forma imprevisível, pelo menos para nós que jogamos com as palavras de que a custo nos lembramos para exemplos. E sim, faz-me confusão escrever "espectador" e "espetáculo", "Egito" e "egípcio", "apocalítico" e "apocalipse", "infeção" e (para mim) "infeccioso", "caráter" e (para outros) "característica"...
Este "para mim" e "para outros" tem a ver com o maior problema do acordo, que é a facultatividade: não só vai continuar a haver diferenças inconciliáveis entre a escrita em Portugal e no Brasil (fenómeno/fenômeno, oxigénio/oxigênio, corrupto (cá) / corruto (lá), receção (cá) / recepção (lá)) como se abre espaço para a dupla grafia no mesmo país: assim, em Portugal, uns escreverão "sumptuoso" outros "suntuoso", uns "sector" outros "setor"... conforme pronunciem ou não a consoante (já agora e ao contrário do que eu tinha dito: "facto" não é um destes casos, já que no português europeu o c é sempre pronunciado). E no Brasil, onde se escreve "Antônio", há zonas onde se diz "António", portanto essa escrita também será possível. Ora a ortografia serve precisamente para que não haja este tipo de variação: existe num nível de abstracção para lá dos vários sotaques e pronúncias, senão uns escreviam "vaca" e outros "baca". Ivo Castro propõe que se criem sub-ortografias em cada país, sem facultatividade, que venham resolver este problema criado pelo acordo - talvez resulte, mas é um remendo para limitar os danos de um facto consumado.
Gastei o post quase todo nas questões "científicas", que se calhar nem são as mais importantes. É que não consigo ver quais são as grandes vantagens de uma semi-unificação ortográfica. Como já disse num dos posts anteriores, não é a grafia que faz difícil o Guimarães Rosa. Nem preciso de acordo (que aliás nisso não me ajudaria) para saber de que trata a canção "Cotidiano". Enquanto falarmos a mesma língua havemos de nos perceber o melhor possível, sabendo que é no léxico e na sintaxe, e não na ortografia, que estão as maiores diferenças. Estar a corrigir os livros todos, seja em seis anos ou em seis dias, representa um custo e um esforço insanos para resultados tão modestos. Durante uns tempos vamos andar todos a dar imensos erros ortográficos, e eu a irritar-me ainda mais ao ler o jornal ou a corrigir quem ainda escreve "excepção" e quem acha que agora se escreve "fato". Falei do custo em árvores. Estavam em vez da floresta.
Resumindo, este acordo:
- tem um objectivo inútil, ou quase, porque não é a ortografia que dificulta a comunicação entre os falantes do português
- nem sequer cumpre aquilo a que se propunha, já que continua a haver várias diferenças entre as grafias portuguesa e brasileira (estes dois pontos fazem dele um desperdício de recursos que podiam ser aproveitados para facilitar a circulação dos livros entre os países da "última flor do Lácio" - sempre regada a água do luso)
- tem falhas científicas, quer ao argumentar de forma inconsistente para excluir as consoantes mudas, quer ao abrir espaço para duplas grafias no mesmo país, contrariando a própria noção de ortografia
- já me fez perder muito tempo, mas confesso que até gosto destas discussões chatas que costumam esvaziar os lugares à minha volta

[Quanto ao trema: não me importava nada que ainda existisse, mas graças ao acordo os brasileiros é que vão ficar sem ele.]

Praga, 1968

Interrogator We're supposed to know what's going on inside people. That's why it's the Ministry of the Interior.
Tom Stoppard, Rock 'n' Roll

quinta-feira, 27 de março de 2008

Kitano

- Gostas do Hana-Bi?
- É dum wannabe.

(lembrando-me de um post antigo)

Carpe diem

Falemos agora de cinema como deve ser. Tal como o Rui Tavares, achei imensa graça à tresleitura que José Manuel Fernandes fez anteontem do Clube dos Poetas Mortos, ainda por cima com uma argumentação muito duvidosa: 1. O professor Keating foi expulso do colégio de Welton; 2. Na escola portuguesa não há lugar para Keatings; 3. Só pode haver um Keating em colégios como o de Welton. Quer-me parecer que o Keating, para onde quer que vá, está tramado.
Mas queria chamar a atenção para um pormenor: JMF diz que "os métodos do professor acabaram por criar uma tensão de que resultou o suicídio de um dos seus alunos"; Rui Tavares fala do "filme em que um execrável colégio interno levava um dos seus alunos ao suicídio". Ora, nem o Rui nem JMF devem ter visto o filme mais de dez vezes, ao contrário de todas as pessoas nascidas entre 1976 e 1980. Cabe-me portanto informá-los de que a culpa não é nem do professor nem do colégio: é do pai, que não deixa o filho ser actor. Falta rigor na imprensa de referência.

Voilà 2

Caro Ivan,
Não sou eu que vou argumentar conta a "superioridade do português do Brasil": não por concordar ou discordar, a afirmação inversa é que me soa ridícula. É óbvio que estava só, como se costuma dizer, a embirrar, embora o sintagma "ótimo ator" me pareça claramente uma provocação - porque não, sei lá, "excelente intérprete"?
E acho que tenho algumas razões para esta minha embirração contra o acordo, como o facto por exemplo de se escrever "espetáculo" sem c e "espectador" com, perdendo-se não só a ligação etimológica entre as duas (como já acontece no português brasileiro) mas também a indicação gráfica para abrir o e em "espectáculo" (coisa de que, por causa das fonéticas respectivas, o português brasileiro não precisa e o europeu sim). Acho finalmente que é tudo uma perda de tempo e dinheiro (e as árvores, as árvores), sem uma base científica credível e sem ganhos evidentes para os leitores.

quarta-feira, 26 de março de 2008

Obrigado

A quem comentou o post do aniversário. Fiquei mesmo contente e não estava à espera. Pelas minhas contas só dois dos leitores do blog é que não disseram nada (não, um, o outro sou eu). Prometo então escrever mais 60 posts, só metade dos quais sobre o Rivette e apenas uma minúscula percentagem sobre o acordo ortográfico.

Voilà

Este é bem capaz de ser o primeiro post escrito em conformidade com o novo acordo ortográfico, que o novo Ministro da Cultura decidiu recentemente apoiar. Nada de surpreendente: se a ideia era "fazer mais com menos", porque não começar por deitar fora algumas letras que não servem para grande coisa?
Em apenas dois parágrafos temos "contrafação", "ótimo", "ator", "abstração", "atores". A sensação é estranha (e não duvido de que um dia se entranhe). Eis um texto com a sintaxe e semântica do português europeu cuja leitura é sobressaltada de vez em quando por uma gralha que não existe. São as mesmas palavras mas não bem as mesmas. Como as notas falsas de que o filme comentado trata? Seria demasiado fácil. Não, antes como nos filmes os mortos-vivos ou extraterrestres que andam no meio das pessoas normais e só se distinguem por um pequeno pormenor: não sangram, ou têm os olhos vermelhos, ou pele a mais atrás das orelhas... (O Žižek fala disto para explicar o objet petit a lacaniano, mas eu ainda não percebi nem isso agora vem ao caso.)
O engraçado é que o Ivan Nunes escreve "fato" em vez de "facto", embora a maior parte (?) dos falantes de português europeu pronuncie o c (como em "espectadores", que se escreve assim tanto cá como no Brasil). Trata-se portanto de uma palavra que em princípio ficaria na mesma, e este "em princípio" é um dos problemas deste acordo: para se fazer a revisão de um texto vai ser preciso perguntar ao autor como é que ele pronuncia determinadas palavras. A menos que o Ivan esteja a seguir a norma brasileira, onde "facto" se escreve e continuará a escrever "fato"... mas não, mais abaixo está "oxigénio" e não "oxigênio".
Enfim, como às vezes me calha corrigir textos alheios, já sei que vai sobrar para mim.

segunda-feira, 24 de março de 2008

La Belle Noiseuse


Esta forma de esvaziar os actores deve frequentemente revoltá-los, mas há um tempo para os escutar, outro para os fazer calar.
Jacques Rivette, "Carta sobre Rossellini", Cahiers du Cinéma, Abril 1955


Constance Dumas, na Bande des Quatre, diz que o teatro é uma série de provas/provações ("épreuves"). Assim o cinema visto no cinema: é inesquecível a experiência das quatro horas da Belle Noiseuse (ainda bem que não achei que ter visto em dvd no portátil bastava... Agora só volta a passar na sala pequena, o que não será bem a mesma coisa).
Se, como diz Alain Bergala, o Mépris de Godard é um remake de Viaggio in Italia, então a Belle Noiseuse é a versão de Rivette do filme de Rossellini, com a crise de dois casais em vez de um. E isto sem esquecer que entretanto houve o Mépris... Piccoli está nos dois filmes franceses para o demonstrar. Veja-se a semelhança de motivação para a ruptura do casal (Bardot/Piccoli num caso, Béart/Bursztein no outro): o sacrifício da mulher pelo artista enquanto jovem. Ou pense-se no tema do palimpsesto, as telas que se rasuram e sobrepõem como os filmes. Como diz Jane Birkin, referindo-se à segunda versão do quadro "La Belle Noiseuse", "substituiste a minha cara por um par de nádegas" - e não é o rabo de Bardot que em Godard toma o lugar do rosto da Bergman, se compararmos o início do Mépris com o da Viagem? Quanto ao Mediterrâneo dos dois primeiros filmes, Rivette troca-o pela floresta - é de resto Piccoli/Frenhofer quem compara o som do mar ao das árvores, primordial como a radiação fóssil que vem dos confins do universo.
Mas é entre Rivette e Rossellini que a relação é mais interessante: para a ver, basta acreditar que ela existe. Talvez começando por notar a influência de Matisse na pintura de Frenhofer/Bernard Dufour, Matisse que estava na cabeça de Rivette ao ver a Viagem em Itália. Ou pensando na cena de comédia que é a do regresso nocturno de George Sanders, vindo de Capri, à casa do tio Homer, com as luzes que se vão acendendo e apagando à medida que se atravessam as divisões: Piccoli repetir-lhe-á os gestos uma noite, mas, ao contrário de Sanders, acabará por ir dormir ao quarto de Jane Birkin.
No entanto, é o momento da revelação o que mais aproxima os dois filmes: a reacção de Ingrid Bergman em Pompeia ao casal surpreendido pelo vulcão é a mesma da de Emmanuelle Béart (ou de Jane Birkin) perante o quadro concluído - um estremecimento perante a verdade que o corpo esconde, uma verdade que é morte (Birkin desenha uma cruz nas costas da tela) ou, por outras palavras, reflexão sobre o cinema (a imagem é um sudário, diz Bazin).
Sim, a pintura está aqui em vez do cinema, como noutros casos o teatro; mas a relação do pintor com o seu modelo não é automaticamente, neste que é o menos rivettiano dos seus filmes, a de Rivette com Béart - o jogo de espelhos, ampliado pela duplicação dos casais, é mais subtil e perverso, e pode ficcionar também o par Rossellini/Bergman (ou Godard/Bardot, ou Godard/Karina...). La Belle Noiseuse, mais do que um remake, é um making of.

P.S.1: Ainda os títulos de filmes futuros. O livro para adolescentes que escreveu a personagem de Emmanuelle Béart chama-se Le Secret défense aux yeux d'or, muito antes de Rivette pensar em fazer o Secret Défense... Quanto aos "olhos de ouro", vem de La Fille aux yeux d'or, romance de Balzac que encerra a trilogia da Histoire des Treize (tendo Rivette aproveitado o prefácio para Out 1 e adaptado o segundo romance, La Duchesse de Langeais, para o seu último filme).
P.S.2: Ainda o Ágon. ZM, acreditas que a música do genérico do filme é mesmo a do ballet de Stravinsky de que falavas?

sexta-feira, 21 de março de 2008

Aniversário

Na passada quarta-feira este blog fez um ano. Deixei passar a data de propósito, a ver se alguém reparava, mas qual quê. Nem uma palavra, um link, um email. Isto depois de mais de 60 posts, o que dá uma média de, bom, de mais de 60 posts por ano.
Sem brincadeiras: obrigado aos que ainda se dão ao trabalho de passarem por aqui. São a alegria desta fábrica tantas vezes em greve.

VPV versus KJV

In the beginning God created the Heauen, and the Earth. And the earth was without forme, and voyd, and darknesse was vpon the face of the deepe: an the Spirit of God mooued vpon the face of the waters. (King James Bible, Gen. 1:1-2)

Durante séculos não ocorreu a nenhum cristão a ideia sacrílega de lhe alterar uma letra e esse respeito passou inevitavelmente para a vida profana.
(Vasco Pulido Valente, Público, 21/03/08)

Encontrei aqui um fac-simile da King James Bible (KJV) de 1611. Não é preciso ir mais longe do que o segundo versículo para encontrar discrepâncias entre a grafia utilizada e a actual; mais: o próprio texto usa variantes ("Let there be light"e "Let there bee lights" nesta mesma primeira página do Génesis).
Isto para dizer que a crónica de hoje de Pulido Valente é um disparate pegado. Como é que se pode dizer, sem corar, que a KJV fixa a grafia inglesa? Que contribua para o estabelecimento de um dialecto inglês padrão não duvido, só que a ortografia é outra coisa. Nunca tinha lido a KJV com a grafia original, mas bastava-me ter olhado para as reproduções das primeiras edições de Shakespeare (o First Folio é de 1623) para ter a certeza de que a norma gráfica não era a maior preocupação do séc. XVII. Em Portugal como em Inglaterra, estas questões surgem no Iluminismo, altura em que se publicam gramáticas e dicionários (não necessariamente os primeiros, mas os mais influentes - e é o dicionário do Dr. Johnson de 1755 que mais contribui para a fixação da grafia britânica). Ao "durante séculos" de VPV deve acrescentar-se em rodapé "descontando o primeiro século e meio".
Mas não é só este anacronismo, sobre o qual toda a crónica se alicerça, que não bate certo: a própria ideia central de que o inglês "se escreve, com ligeiras variantes, da mesma maneira em metade do mundo", por oposição ao português, não resiste ao exame mais superficial. Já há uns tempos tinha linkado este artigo da Wikipédia sobre as diferenças gráficas entre o inglês britânico e o americano (cuja ortografia é fixada pelo Webster de 1828), onde se vê que são perfeitamente comparáveis às que separam o português europeu do brasileiro.
A partir daí a comparação dos cânones literários em português e inglês é apenas tonta (com a aberração que é chamar "nativista" a Guimarães Rosa), mais uma glosa do tema preferido de VPV, segundo o qual "os portugueses não prestam, os ingleses é que é" (e que normalmente tem graça). Mas acho que nunca como hoje me chocou tanto a torção da realidade em função desse juízo a priori. Ainda por cima quando o exemplo inglês é um óptimo argumento contra o erro científico que é este acordo ortográfico - ali nunca foram precisas uniformizações transatlânticas.



Pronto, já estou mais calmo.

terça-feira, 18 de março de 2008

História de títulos

Não me digas uma coisa dessas, Alexandre. Já tinha toda uma teoria que girava em volta de o Secret Défense ser o único filme do Rivette em que o o título era dito pelas personagens. Até tinha a citação da entrevista "Le temps déborde" para me apoiar: "Todas as regras devem ser contraditas uma vez."
Sim, lembrava-me que se dizia "Belle Noiseuse" na Bande des Quatre, anunciando o próximo filme; e reparei ao vê-lo na Cinemateca que, no Duelle, se fala na árvore do "Noroït", o vento de noroeste que dá o título ao projecto seguinte. Claro que no Noroït nunca se fala no nome do vento, embora haja supostamente um tesouro na direcção nor-noroeste (o que remete para esta linhagem). No Duelle há, como em Ne touchez pas la hache, outra near miss, desta vez não por supressão mas por homofonia: junto à árvore do Noroït terá lugar um "duelo" (duel, e não duelle, que quer dizer "dual"). E também tenho ideia que no Va Savoir se diz "allez savoir"!
Enfim, para a minha teoria que cai "par terre", resta a consolação de tomar a citação do "Temps déborde" ela própria como uma regra: contradiz-se a regra do Renoir uma vez, e contradiz-se também uma vez a regra que diz que se deve contradizê-la.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Obama for America

Já circulavam na net as semelhanças entre a sexta temporada do West Wing (que está agora convenientemente a passar no AXN) e as actuais primárias nos EUA: um candidato de uma minoria étnica contra um vencedor antecipado entre os democratas, com a escolha do vencedor a decidir-se (?) na Convenção; um senador mais centrista (e mais velho) entre os republicanos. Ainda não tinha ido à procura de textos sobre os óbvios paralelismos, mas tenho andado a seguir o processo real como uma continuação da série por outros meios, até às tantas na CNN a cada novo episódio (a Super Tuesday foi uma espécie de compacto) - e não está nada mal feito. Na comparação entre a realidade e a ficção as coisas equilibram-se: o Obama é muito melhor do que o Matt Santos interpretado por Jimmy Smits (ok, a Hillary talvez seja um bocadinho melhor que o vice-presidente Bob Russell); mas gosto mais do Arnold Vinick do Alan Alda do que do McCain. E entretanto até já descobri quem é o Sam Seaborn do Obama, um "speechwriter" com 26 anos chamado Jon Favreau.
O plot twist vem no Guardian de hoje: como sempre que pensamos ver a vida a imitar a arte, parece que a personagem do jovem congressista Matt Santos se inspirou num jovem político do Illinois (ainda nem sequer senador) que acabara de fazer um grande discurso na convenção democrata...
O criador da série, Aaron Sorkin, abandonou-a no fim da quarta temporada - mas a sexta e a sétima (como estas coincidências ilustram) estão muito longe de ser um salto por cima do tubarão (uma opinião offshore que só se explica sabendo do transtorno extremo que o seu autor atravessava na altura).

Cenas da vida conjugal

- Querida, qual é que é para dormir, o chá de tília ou o chá de cidreira?
- O Xanax.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Caótico mas não absurdo

- Bien... C'est un peu décousu, non?
- Bien sûr, et après?
- Oh, ça n'a pas grande importance...
- Pourquoi?
- Parce que tout se lie sur un autre plan.


Já li de certeza isto algures, se calhar mais do que uma vez: é claro como nesta cena de Paris nous appartient entre Betty Schneider (Anne) e Giani Esposito (Gérard, o encenador de Péricles de Shakespeare) se expõe uma poética possível não só para este filme (onde a acidentada montagem de Péricles reflecte as dificuldades da rodagem do filme) mas para todo o cinema de Rivette. Como diz Gérard um pouco depois, "la mise en scène d'un monde chaotique mais pas absurde".
Mas desta vez (a segunda, ainda não cheguei aos três visionamentos que Luc Moullet exige, como se diz na folha da Cinemateca de Luís Miguel Oliveira) reparei noutra coisa: nos últimos cinquenta anos alguém mudou o pavimento do Pont des Arts.

Aço contra aço

- Monsieur, lui disait-il, l'une des choses qui m'ont le plus frappé dans ce voyage...
La duchesse était tout oreilles.
- ... Est la phrase que prononce le gardien de Westminster en vous montrant la hache avec laquelle un homme masqué trancha, dit-on, la tête de Charles Ier en mémoire du roi qui les a dit à un curieux.
- Que dit-il? demanda madame de Sérizy.
- Ne touchez pas à la hache, répondit Montriveau d'un son de voix où il y avait de la menace.
- En vérité, monsieur le marquis, dit la duchesse de Langeais, vous regardez mon cou d'un air si mélodramatique en répétant cette vieille histoire, connue de tous ceux qui vont à Londres, qu'il me semble vous voir un hache à la main.
Ces derniers mots furent prononcés en riant, quoiqu'une sueur froide eût saisi la duchesse.
- Mais cette histoire est, par circonstance, très neuve, répondit-il.
- Comment cela? je vous prie, de grâce, en quoi?
- En ce que, madame, vous avez touché à la hache, lui dit Montriveau à voix basse.
Balzac, La Duchesse de Langeais


É desta declaração de guerra que vem o título do último filme de Rivette, adaptação do romance de Balzac: está em itálico no livro e era mesmo o título com que ele chegou a ser publicado, antes de Balzac o mudar para La Duchesse de Langeais. Com uma pequena diferença: Montriveau diz (no livro e no filme) Ne touchez pas à la hache, mas o filme chama-se Ne touchez pas la hache. Sem sensibilidade suficiente ao francês para distinguir "toucher" como verbo transitivo directo e indirecto (embora em português também se possa "tocar o machado" e "no machado"), parece-me no entanto ser dupla a razão desta preposição a menos.
Por um lado, trata-se de cumprir a regra de Renoir segundo a qual o título do filme nunca deve ser pronunciado nos diálogos: nunca ninguém fala numa "regra do jogo" nem numa "grande ilusão"... E Rivette tem respeitado quase sempre este preceito (com pelo menos uma excepção:
Secret Défense).
Por outro lado, talvez se mostre aqui a estratégia da adaptação.
La Belle Noiseuse (a partir de Le chef-d'œuvre inconnu, também de Balzac) é o título do quadro que Frenhofer pinta na novela: a adaptação era portanto redução, mise en abyme e passagem do que pode ser lido para o que pode ser visto. Em Hurlevent, a partir de Emily Brontë, desaparece metade do título (Wuthering Heights/ Les hauts de hurlevent). Agora, em Ne touchez pas la hache, um duplo movimento que brinca com a (im)possibilidade de ser extremamente fiel: regressar filologicamente à origem, até antes da origem, ao primeiro título entretanto abandonado, sabendo no entanto que há uma falta no centro desse processo - um à minúsculo, uma pequena diferença.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Ágon 2

Contou-nos um dia o Jorge Silva Melo, quando o entrevistávamos para Os Fazedores de Letras, a história da estátua de Laocoonte. Dela fala Lessing e o Jean Jourdheuil contou-a ao JSM como lição de representação. Como não encontro a entrevista, tenho agora de contá-la eu... Fotocópia de fotocópia, cada vez mais apagada. A estátua representa Laocoonte e os filhos debatendo-se com duas serpentes que os matarão: mas o futuro é incerto, no instante captado só se vê sofrimento e esforço, nada está ainda decidido. Assim deve fazer o actor, conservar a tensão em vez de mostrar o facto consumado.
Os stills dos filmes de Rivette que estão ali em baixo dizem isto mesmo: nada sabemos daquelas pessoas para além da luta por faca, revólver, faca. Aproxima-os a escala dos planos, a torção dos corpos, a tensão dos pulsos. Mas tudo o que vem antes e depois os distingue: Anna quer matar Thomas mas este surpreende-a pelo vidro da janela e desarma-a; Sophie quer matar Walser (fora de campo), Véronique tenta impedi-la e acaba por receber o tiro; Julien quer matar-se, Marie tenta impedi-lo e fará na carne de ambos uma incisão que distingue os mortos dos vivos.
É possível detectar uma progressão. No primeiro caso (La Bande des quatre, 1988) há música a acompanhar, a luta faz-se bailado, todos os gestos são visíveis e rituais; no segundo (Secret Défense, 1998), embora também resolvido num único plano, a estilização diminui, a arma dispara entre os corpos sem que a vejamos (na agitação a Bonnaire vira-nos as costas); no terceiro caso (Histoire de Marie et Julien, 2003) é tudo mais recortado, haverá grandes planos dos pulsos e da Béart. Do "teatro" para o "cinema"? Nada de tão simples. Persiste uma noção de coreografia, a acção é rápida mas o ritmo é nítido, os gestos desenhados: não há câmaras lentas, não se partem móveis e vidros em lutas intermináveis, não há montagens rápidas com grandes planos onde só passam sombras a correr, não há truques de "cinema". É a mesma disciplina que Cronenberg impõe aos acidentes de Crash.
Edward Bond descreve assim uma cena de violência com um polícia na sua peça A Prisão (está no programa da Cornucópia, 1995):

A destruição não é uma cena de comprazimento na violência caótica. É uma lição de capacidade de destruição, ensinada pela Autoridade. A Autoridade escolhe cuidadosamente os objectos a partir. As suas acções têm objectivos precisos. Treina a sua vítima eficientemente. Só no fim é que acaba por se tornar vítima de si própria. Vi um ensaio em que a luta estava marcada como um show de boxe de televisão. Era desastroso. O que mostrava é que a Autoridade até da violência na televisão era proprietária e que a transformava em produto comercial. Não mostrava a causa social e os custos psicológicos da violência.

Vejo os filmes de Rivette e lembro-me da cena do espectáculo entre Miguel Guilherme e José Meireles. Porque são todas cenas de "teatro"? Porque são contra a "televisão".

[penitencio-me pelas aspas irritantes - foi por uma questão de rapidez]

Spectre

Entro em estágio-Rivette, patrono deste blogue. É já em Fevereiro que começa o ciclo da Cinemateca, que promete a integral das longas-metragens. Dos primeiros filmes a exibir já vi todos tirando o Duelle: os mais difíceis passaram não há muito tempo no ciclo das longuíssimas metragens. Adorava poder rever entre outros o Amour Fou, agora na sala grande, mas temo que me impeçam motivos (como soi dizer-se) profissionais - talvez dê para ver as duas últimas horas, se me deixarem entrar.
Entretanto, uma dúvida persistente e pessimista vai-me roendo: será que na continuação do ciclo passarão de facto as longas-longas ou só a sua versão curta? É que a obra de Rivette é em muitos casos dupla - há o filme e o seu fantasma. Há Out 1 - Noli me tangere (quase 13 horas) mas também Out 1 - Spectre (mais de quatro); há a versão completa de L'Amour par terre (em dvd) e a truncada que estreou comercialmente; há La Belle Noiseuse e La Belle Noiseuse - Divertimento; finalmente, há Va Savoir e Va Savoir +. A dúvida cresce quando leio na programação de Fevereiro que a versão longa de Out 1 [e não "Out One", como erradamente se escreve: é o próprio Rivette quem diz que só o "out" é em inglês, o 1 é na língua que se estiver a falar. Já agora, também o título do novo filme está mal escrito: é Ne touchez pas la hache, e não "à la hache"] só foi exibida uma vez - é que tem sido mostrada nos vários ciclos Rivette que se fizeram o ano passado, como por exemplo no Centro Pompidou.
O Alexandre Andrade pertence ao diminuto subconjunto de portugueses que viu - julgo que em vídeo (eu até tenho aqui os vê-agá-esses, mas ainda não tive vagar...) o Noli me tangere. Não sei se haverá outra oportunidade de fazer crescer este número para valores que Langlois considerasse maravilhosos. E se exibirem o Va Savoir + eu prometo que pago as quotas em atraso. Já agora, se não for pedir muito: como vai haver, já este mês, o Jean Renoir, le patron (filme de Rivette sobre Renoir para a série Cinéastes de Notre Temps) rezo para que haja o Jacques Rivette, le veilleur (filme de Claire Denis sobre Rivette, que conversa com Daney).
Rivette diz que a rodagem de um filme é um complot. E um ciclo Rivette não pode deixar de sê-lo - mas teremos, antes do genérico final, acesso a todas as peças que permitam reconstituir o mistério? Eu enfiei na garrafa a minha carta, movi hesitante a minha peça: é um peão, mas quem sabe o seu futuro.