sábado, 15 de dezembro de 2007

Semântica

GAF diz que este foi o meu post de Natal, e que ando "filosoficamente calado". Acho boa a ideia de acompanhar apenas os momentos altos do calendário religioso (com este post já devo ir no Natal de 2008), mas não concordo de todo é com o advérbio: preguiçosamente, sim; angustiadamente, também; ou ainda displicentemente, ensurdecedoramente, surpreendentemente, miseravelmente, felizmente, vá. Agora filosoficamente, nunca.
Aproveito este meu inédito frenesim de escrita, autêntica blogofúria, para actualizar links:
Feliz 2009.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Sintaxe

Aquilo de que mais gostei na crítica do MEC ao livro do RAP no Ípsilon da semana passada foi este excerto: “E porque não? Devem ser as duas palavras mais engraçadas, úteis e curtinhas que temos. Porque não?” É que isto obrigou os pressurosos revisores do Público a não separar o “por” do “que”, e é muito bem feita que é para aprenderem, devem-se ter roído todos por dentro.
Já esta semana, António M. Feijó não teve tanta sorte ao escrever sobre a biografia de Shakespeare de Peter Ackroyd: “As descrições que fez persistem. E por que não persistiriam?” Pois, também não sei por qual “não”, nem sei quantos “nãos” há à escolha, nem por que insondáveis desígnios é preciso escolher só um.
Aconselho portanto todos os colaboradores a doravante citarem a MEC-jurisprudência, logo ali no próprio texto. Feijó devia então ter escrito: “As descrições que fez persistem. E porque não (devem ser as duas palavras mais engraçadas, úteis e curtinhas que temos: porque não) persistiriam?”

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

A maior parte do tempo

Não resisti a tentar a tradução da letra do Bob Dylan que o Pedro disse que era muito difícil. Também achei que era, e não consegui mais do que isto - talvez cá volte. De facto não é só manter as rimas, é não deixar que o registo fuja da banalidade, manter a cabeça baixa, não me armar em esperto. Não sei se ajudou conhecer menos do Dylan do que a Dona Emília. De qualquer modo esta é uma tradução-tradução, a versão bem-comportada e muito menos divertida disto aqui.

A maior parte do tempo
Tenho clara a visão
A maior parte do tempo
Tenho os pés bem assentes no chão
Consigo manter o rumo, ler cada sinal
Não me perder, quando vou estrada fora
Lá vou dando conta do que corre mal
Nem reparo que ela se foi embora
A maior parte do tempo

A maior parte do tempo
É certo e sabido
A maior parte do tempo
Deixava tudo assim resolvido
Consigo que tudo bata certo, resisto como posso
Consigo lidar com a situação até ao osso
Consigo sobreviver, consigo aguentar
Lembrar-me dela nem pensar
A maior parte do tempo

A maior parte do tempo
Tenho a cabeça no lugar
A maior parte do tempo
Tenho forças para não odiar
Não alimento a ilusão até ficar enjoado
Não me assusta a confusão mesmo a mais louca
Sou capaz de sorrir à humanidade
Nem sequer me lembro de sentir a sua boca
A maior parte do tempo

A maior parte do tempo
Não penso nela um segundo
Não a conhecia se a encontrasse
Está mesmo lá ao fundo
A maior parte do tempo
Certeza nem vê-la
Se alguma vez esteve comigo
Se alguma vez estive com ela

A maior parte do tempo
Ando semi-satisfeito
A maior parte do tempo
Sei exactamente o que foi feito
Não me engano a mim mesmo
Não tapo os ouvidos
A estes sentimentos cá dentro metidos
Sem cedências e sem disfarçar
Nem sequer me importa se a volto a encontrar
A maior parte do tempo.

sábado, 13 de outubro de 2007

Sobe e desce

Ontem, na contracapa do Público, punham o Al Gore com uma setinha para baixo. Há dias em que mais vale nem sair de casa.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Walk and Talk

A assinatura da série é a simbiose entre os diálogos jazzísticos de Sorkin e a vertigem dos travellings de Thomas Schlamme acompanhando os movimentos das personagens pelos corredores da ala oeste. Palavra e mise en scène na mesma respiração. Um professor meu falaria talvez em dimensão peripatética... Cite-se então o início do Fedro, no seu "passeio até lá fora das muralhas":

SÓCRATES Tenho a certeza de que Lísias te regalou com a sua eloquência!
FEDRO Contar-te-ei, se nada te impedir de me acompanhar e escutar.
SÓCRATES Mas que ideia! Não te parece que eu sou, como diz Píndaro, um homem disposto a sacrificar todos os impedimentos ao cuidado de ouvir narrar a conversa que Lísias e tu tivestes?
FEDRO Nesse caso, acompanha-me! [Ou, como diria Leo, "walk with me!"]


Gosto especialmente da auto-reflexividade deste diálogo (série 4, episódio 10) entre Josh e Donna, no caminho que vai do escritório daquele até à Mural Room:

JOSH What do you think about this Vickie Hilton problem?
DONNA I think you know what I think.
JOSH No, I mean about whether it's right for the White House to be involved.
DONNA That's a harder question. I've been thinking about it and...
JOSH You've got to go faster next time. I'm here already.
DONNA Yeah.

Are you talking to me during "The Jackal"?

Em plena fase Aaron Sorkin, descobrindo aos poucos o Studio 60 no FX e consumindo doses industriais de West Wing. Post hoc ergo propter hoc. E vice-versa.

Flora e Literatura

Gosto de pastinagas porque sabem a violetas e de violetas porque cheiram como as pastinagas. Se não houvesse pastinagas na terra não quereria saber de violetas para nada e se as violetas não existissem as pastinagas ser-me-iam tão indiferentes como os nabos, ou os rabanetes. E mesmo no estado actual da sua flora, quer dizer, num mundo onde pastinagas e violetas arranjaram maneira de coexistir, privar-me-ia de ambas com a maior das facilidades, a maior das facilidades.
Samuel Beckett, Primeiro Amor

Só as conhecia daqui, e agora o Daniel ensina que existem mesmo e até se podem comer fritas.

Teatro e Nevoeiro

Muchas cosas que sé de teatro, las sé por el fútbol. Una caja de resonancias: pasional, histórica y política. Trasciende, permite identificaciones. El juego mismo, sus límites, el espacio. Cómo el espacio determina la forma del juego. Es distincto ver un partido en la Bombonera que en la cancha de River. La Bombonera es más física, porque estás inclinado sobre el campo, todo está más cerca, está más comprimido, en la cancha de River el espacio se abre, entonces es necesario un juego más "elástico". A veces hay niebla en la cancha. Se hace difícil "jugar". Las distancias cambian. Se cree estar haciendo un juego y en realidad está pasando otra cosa.
Ricardo Bartís, actor e encenador argentino
"Conexión de mundos" in Cancha con Niebla - Teatro perdido: fragmentos

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Impressões de actores

Reivindicando com orgulho o título de oitavo leitor d'As Aranhas, e tentando dar algum movimento a esta imitação de blogue, aqui segue uma lista de actores e actrizes que, para além da película, me impressionaram a mim. Como só vi para aí um e meio destes filmes, as escolhas têm necessariamente de ser mais óbvias e refutáveis.

Entre as actrizes, lembrei-me destas (sem ordem):
- Anna Karina no Vivre Sa Vie de Godard
- Anna Magnani no Carrosse d'Or de Renoir
- Sylvia Bataille no Partie de Campagne do mesmo
- Gena Rowlands no Opening Night de Cassavetes
- Juliet Berto no Céline et Julie vont en bateau de Rivette
- Shirley MacLaine no Same Came Running de Minnelli
- Kim Novak no Vertigo de Hitchcock
(e ainda não vi a Rapariga da Mala...)

Para os actores, com ainda menos imaginação do que convicção, sugiro ainda
- Ben Gazzara em The Killing of a Chinese Bookie de Cassavetes (ou o trio de protagonistas do Husbands?)
- Marlon Brando no Streetcar Named Desire do Kazan
- Robert Mitchum em The Night Of The Hunter do Laughton

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Luizabeth

O poema ensina a cair
sobre os vários solos
The art of losing isn't hard to master
so many things seem filled with the intent
to be lost
desde perder o chão repentino sob os pés
como se perde os sentidos numa
queda de amor, even losing you
It's evident
quando a face atinge o solo
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!)
uma homenagem
póstuma

sexta-feira, 29 de junho de 2007

Super-herói

Num dos novos cartazes da campanha de José Sá-Fernandes aparece uma nova personagem: chama-se Corredor Verde e é primo do Surfista Prateado.

Arritmia

Fui lincado por dois dos meus bloggers preferidos, o Pedro Mexia e a Fernanda Câncio - fiquei contente, prontoS. Para além disso a coisa (basta olhar para o electrocardiograma do sitemeter) funcionou como dois choques de desfibrilhador, mas qualquer consumidor de séries de médicos sabe que só ao terceiro "Charge 300! Clear!" é que o paciente tem hipóteses.

segunda-feira, 25 de junho de 2007

Gatsby 4

He smiled understandingly - much more than understandingly. It was one of those rare smiles with a quality of eternal reassurance in it, that you may come across four or five times in life. It faced - or seemed to face - the whole external world for an instant, and then concentrated on you with an irresistible prejudice in your favor. It understood you just so far as you wanted to be understood, believed in you as you would like to believe in yourself, and assured you that it had precisely the impression of you that, at your best, you hoped to convey.

Gatsby 3

"Now, don't think my opinion on these matters is final," he seemed to say, "just because I'm stronger and more of a man than you are."

Gatsby 2

He knew that Daisy was extraordinary, but he didn't realize just how extraordinary a "nice" girl could be.

Gatsby 1

It is invariably saddening to look through new eyes at things upon which you have expended your own powers of adjustment.

Happy Few


As minhas tentativas para, com e-mails e telefonemas, levar mais algumas pessoas a ver Gatz, dos Elevator Repair Service, foram quase tão inglórias quanto as do narrador Nick Carraway para conseguir ter alguns amigos presentes no enterro de Gatsby:

“The funeral’s to-morrow,” I said. “Three o’clock, here at the house. I wish you’d tell anybody who’d be interested.”
“Oh, I will,” he broke out hastily. “Of course I’m not likely to see anybody, but if I do.”
His tone made me suspicious.
“Of course you’ll be there yourself.”
“Well, I’ll certainly try. What I called up about is—”
“Wait a minute,” I interrupted. “How about saying you’ll come?”
“Well, the fact is—the truth of the matter is that I’m staying with some people up here in Greenwich, and they rather expect me to be with them to-morrow. In fact, there’s a sort of picnic or something. Of course I’ll do my very best to get away.”
I ejaculated an unrestrained “Huh!” and he must have heard me, for he went on nervously:
“What I called up about was a pair of shoes I left there. I wonder if it’d be too much trouble to have the butler send them on. You see, they’re tennis shoes, and I’m sort of helpless without them. My address is care of B. F.—”

F. Scott Fitzgerald, The Great Gatsby

segunda-feira, 11 de junho de 2007

Por pouco não existia

Helena Matos no Público de hoje:

O habitante da cidadela lisboeta não morre (...), não anda de automóvel e muito menos atravessa túneis e parques de estacionamento. Opõe-se à abertura de qualquer centro comercial, pois só faz compras no comércio tradicional, vive em Alfama, Mouraria, Campo de Ourique, Lapa ou outros bairros seculares, em casas antigas. Dir-me-ão que este lisboeta não existe. Pois não.

Se eu não fosse a centros comerciais, estava tramado. É que preencho todos os outros requisitos.

Feira do Livro

Terei sido o único a reparar que a locutora que anunciava os livros do dia era a Paula Moura Pinheiro?

Narcísico sem vida interior

EPC descreveu-se assim em entrevista ao Expresso. Deve ser por isto que tenho um blog mas não escrevo nele.

sexta-feira, 18 de maio de 2007

Jogos da blogosfera

1. Há o teste político que vi pela primeira vez aqui. Já o fiz duas vezes, e para minha irritação dá-me sempre "green" em primeiro lugar, seguido ou de "social liberal" ou de "communist"... Confesso que há várias perguntas cuja importância classifico como "High" mas onde não consigo decidir se concordo ou discordo, portanto ficam "I am not sure". O que eu queria mesmo era ser anarco-comunista. Talvez à terceira.
2. A escala Warhol proposta pelo Pedro, que já vi retomada nestes dois sítios. Não sei se escritores de teatro contam. E não me esqueço da voz da Jeanne Balibar com quem nervosamente (porque tinha de falar francês, bien sûr) meti conversa em Orléans a propósito do Rivette. Mas celebridade a sério para mim foi em Edimburgo: melhor ainda porque estava como espectador. Tínhamos ido ver o último espectáculo de uma peça no festival internacional, e fomos convidados para a festa em casa do autor. Na peça entrava o actor escocês mais famoso a seguir ao Ewan McGregor, o Billy Boyd de hobbitiana fama. Parece que havia por lá mais halflings, mas num sofá estava sentado um senhor muito louro, todo vestido de branco, descalço e com um gato ao colo. A certa altura o gato vai ter com o Miguel Borges. E o mestre zen pergunta:
- What's your name?
- I'm Miguel.
- Hi, I'm Viggo.
E o Miguel aperta a mão ao Aragorn em pessoa (só que em fase bem menos hirsuta). Foi o meu encontro com Hollywood. Não vou dizer mais nada sobre isto.

quinta-feira, 17 de maio de 2007

Eu, abaixo assinado

Hoje é dia de subscrever, concordar, assinar por baixo (e escolher um campo). Fui entregar à Rua das Portas de Santo Antão a "declaração de propositura" da candidatura de Helena Roseta, isto depois de ter actualizado o meu recenseamento no penúltimo dia possível graças à insistência do J. (vou sempre deixando tudo para última até passar o prazo, mas não desta vez). Ainda deu para conversar com a mãe de certa e determinada comentadora deste blog, ouvir em fundo uma discussão com um militante do PS que falava da autoridade d'Ele (Sócrates himself) e assistir às técnicas sempre complicadas de angariação de assinaturas: "Gostaria de contribuir para a candidatura de Helena Roseta?" - parece logo que se está a vender um time-sharing e as pessoas fogem ao ouvir o verbo que as faz pensar na carteira.
Concordo absolutamente com o que diz a Cláudia Castelo aqui: mesmo antes de saber em quem votar, é fundamental tornar viável esta candidatura (ainda para mais depois das peripécias muito suspeitas em volta da marcação das eleições), e por isso foi bonito José Sá Fernandes ter ele próprio assinado a declaração esta manhã.
Finalmente, subscrevo esta ideia de Miguel Vale de Almeida (aqui) e Rui Tavares (no Público de ontem, reproduzido aqui): uma aliança entre Roseta e Sá Fernandes seria uma boa forma de unir esforços em torno de ideias comuns, e talvez assim se fugisse ao discurso anti-partidos que marcou demagogicamente a campanha de Alegre.

terça-feira, 1 de maio de 2007

Retire o título

Andei este fim-de-semana para cima e para baixo na A1 e noutras estradas deste país que não conheço. Vi exemplos de:
Exibicionismo: os peregrinos que vão a Fátima, em Tondela como em Rio Maior, reconhecem-se pelos coletes fluorescentes (e estão sempre parados em volta de um carro com o porta-bagagens aberto).
Poesia: "Vou ser feliz e já volto!" é o slogan no outdoor da sex shop Afrodite 100%.
Idade dos porquês: Pergunta o neto no expresso para Viseu, baixinho: "Avó, és a favor ou contra o Salazar?" Resposta inaudível.
Ir a Roma e não ver o papa: passei em Santa Comba Dão no dia de anos do dito e não dei pela manif.
Redundância: Por cima da porta da igreja da Benedita, em letras garrafais, lê-se "Eu sou a porta".
Coprofilia: O anúncio do papel higiénico Renova é "O papel mais sexy do mundo".
Injustiça: Pergunta o Miguel se quem mora em Fátima também faz peregrinações a Fátima. Pareceu-nos um caso evidente de favorecimento indevido.
Qualquer coisa sem nome: Um anúncio num café em Fátima diz algo como "Aceitam-se idosos para casa particular. Pessoa com experiência".
Também aproveitei para ver uma série de belos espectáculos, actores novos apropriando-se orgulhosamente de palavras novas.

Top 2

Obrigado ao Alexandre - a única pessoa que eu conheço que viu a versão longa de quase treze horas do Out 1 (Noli me tangere) de Rivette - pelo simpático enlace. E ao Rogério Casanova pelo anagrama que me coube em sorte, "Fabricar abismo" - deve ser a isto que se chama retorno do recalcado.
Um desde o início, há quatro anos, outro há menos tempo, assim que o descobri, são dois daqueles blogs que eu visito de dez em dez minutos e ainda carrego obsessivamente no refresh.