quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Luizabeth

O poema ensina a cair
sobre os vários solos
The art of losing isn't hard to master
so many things seem filled with the intent
to be lost
desde perder o chão repentino sob os pés
como se perde os sentidos numa
queda de amor, even losing you
It's evident
quando a face atinge o solo
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!)
uma homenagem
póstuma

sexta-feira, 29 de junho de 2007

Super-herói

Num dos novos cartazes da campanha de José Sá-Fernandes aparece uma nova personagem: chama-se Corredor Verde e é primo do Surfista Prateado.

Arritmia

Fui lincado por dois dos meus bloggers preferidos, o Pedro Mexia e a Fernanda Câncio - fiquei contente, prontoS. Para além disso a coisa (basta olhar para o electrocardiograma do sitemeter) funcionou como dois choques de desfibrilhador, mas qualquer consumidor de séries de médicos sabe que só ao terceiro "Charge 300! Clear!" é que o paciente tem hipóteses.

segunda-feira, 25 de junho de 2007

Gatsby 4

He smiled understandingly - much more than understandingly. It was one of those rare smiles with a quality of eternal reassurance in it, that you may come across four or five times in life. It faced - or seemed to face - the whole external world for an instant, and then concentrated on you with an irresistible prejudice in your favor. It understood you just so far as you wanted to be understood, believed in you as you would like to believe in yourself, and assured you that it had precisely the impression of you that, at your best, you hoped to convey.

Gatsby 3

"Now, don't think my opinion on these matters is final," he seemed to say, "just because I'm stronger and more of a man than you are."

Gatsby 2

He knew that Daisy was extraordinary, but he didn't realize just how extraordinary a "nice" girl could be.

Gatsby 1

It is invariably saddening to look through new eyes at things upon which you have expended your own powers of adjustment.

Happy Few


As minhas tentativas para, com e-mails e telefonemas, levar mais algumas pessoas a ver Gatz, dos Elevator Repair Service, foram quase tão inglórias quanto as do narrador Nick Carraway para conseguir ter alguns amigos presentes no enterro de Gatsby:

“The funeral’s to-morrow,” I said. “Three o’clock, here at the house. I wish you’d tell anybody who’d be interested.”
“Oh, I will,” he broke out hastily. “Of course I’m not likely to see anybody, but if I do.”
His tone made me suspicious.
“Of course you’ll be there yourself.”
“Well, I’ll certainly try. What I called up about is—”
“Wait a minute,” I interrupted. “How about saying you’ll come?”
“Well, the fact is—the truth of the matter is that I’m staying with some people up here in Greenwich, and they rather expect me to be with them to-morrow. In fact, there’s a sort of picnic or something. Of course I’ll do my very best to get away.”
I ejaculated an unrestrained “Huh!” and he must have heard me, for he went on nervously:
“What I called up about was a pair of shoes I left there. I wonder if it’d be too much trouble to have the butler send them on. You see, they’re tennis shoes, and I’m sort of helpless without them. My address is care of B. F.—”

F. Scott Fitzgerald, The Great Gatsby

segunda-feira, 11 de junho de 2007

Por pouco não existia

Helena Matos no Público de hoje:

O habitante da cidadela lisboeta não morre (...), não anda de automóvel e muito menos atravessa túneis e parques de estacionamento. Opõe-se à abertura de qualquer centro comercial, pois só faz compras no comércio tradicional, vive em Alfama, Mouraria, Campo de Ourique, Lapa ou outros bairros seculares, em casas antigas. Dir-me-ão que este lisboeta não existe. Pois não.

Se eu não fosse a centros comerciais, estava tramado. É que preencho todos os outros requisitos.

Feira do Livro

Terei sido o único a reparar que a locutora que anunciava os livros do dia era a Paula Moura Pinheiro?

Narcísico sem vida interior

EPC descreveu-se assim em entrevista ao Expresso. Deve ser por isto que tenho um blog mas não escrevo nele.

sexta-feira, 18 de maio de 2007

Jogos da blogosfera

1. Há o teste político que vi pela primeira vez aqui. Já o fiz duas vezes, e para minha irritação dá-me sempre "green" em primeiro lugar, seguido ou de "social liberal" ou de "communist"... Confesso que há várias perguntas cuja importância classifico como "High" mas onde não consigo decidir se concordo ou discordo, portanto ficam "I am not sure". O que eu queria mesmo era ser anarco-comunista. Talvez à terceira.
2. A escala Warhol proposta pelo Pedro, que já vi retomada nestes dois sítios. Não sei se escritores de teatro contam. E não me esqueço da voz da Jeanne Balibar com quem nervosamente (porque tinha de falar francês, bien sûr) meti conversa em Orléans a propósito do Rivette. Mas celebridade a sério para mim foi em Edimburgo: melhor ainda porque estava como espectador. Tínhamos ido ver o último espectáculo de uma peça no festival internacional, e fomos convidados para a festa em casa do autor. Na peça entrava o actor escocês mais famoso a seguir ao Ewan McGregor, o Billy Boyd de hobbitiana fama. Parece que havia por lá mais halflings, mas num sofá estava sentado um senhor muito louro, todo vestido de branco, descalço e com um gato ao colo. A certa altura o gato vai ter com o Miguel Borges. E o mestre zen pergunta:
- What's your name?
- I'm Miguel.
- Hi, I'm Viggo.
E o Miguel aperta a mão ao Aragorn em pessoa (só que em fase bem menos hirsuta). Foi o meu encontro com Hollywood. Não vou dizer mais nada sobre isto.

quinta-feira, 17 de maio de 2007

Eu, abaixo assinado

Hoje é dia de subscrever, concordar, assinar por baixo (e escolher um campo). Fui entregar à Rua das Portas de Santo Antão a "declaração de propositura" da candidatura de Helena Roseta, isto depois de ter actualizado o meu recenseamento no penúltimo dia possível graças à insistência do J. (vou sempre deixando tudo para última até passar o prazo, mas não desta vez). Ainda deu para conversar com a mãe de certa e determinada comentadora deste blog, ouvir em fundo uma discussão com um militante do PS que falava da autoridade d'Ele (Sócrates himself) e assistir às técnicas sempre complicadas de angariação de assinaturas: "Gostaria de contribuir para a candidatura de Helena Roseta?" - parece logo que se está a vender um time-sharing e as pessoas fogem ao ouvir o verbo que as faz pensar na carteira.
Concordo absolutamente com o que diz a Cláudia Castelo aqui: mesmo antes de saber em quem votar, é fundamental tornar viável esta candidatura (ainda para mais depois das peripécias muito suspeitas em volta da marcação das eleições), e por isso foi bonito José Sá Fernandes ter ele próprio assinado a declaração esta manhã.
Finalmente, subscrevo esta ideia de Miguel Vale de Almeida (aqui) e Rui Tavares (no Público de ontem, reproduzido aqui): uma aliança entre Roseta e Sá Fernandes seria uma boa forma de unir esforços em torno de ideias comuns, e talvez assim se fugisse ao discurso anti-partidos que marcou demagogicamente a campanha de Alegre.

terça-feira, 1 de maio de 2007

Retire o título

Andei este fim-de-semana para cima e para baixo na A1 e noutras estradas deste país que não conheço. Vi exemplos de:
Exibicionismo: os peregrinos que vão a Fátima, em Tondela como em Rio Maior, reconhecem-se pelos coletes fluorescentes (e estão sempre parados em volta de um carro com o porta-bagagens aberto).
Poesia: "Vou ser feliz e já volto!" é o slogan no outdoor da sex shop Afrodite 100%.
Idade dos porquês: Pergunta o neto no expresso para Viseu, baixinho: "Avó, és a favor ou contra o Salazar?" Resposta inaudível.
Ir a Roma e não ver o papa: passei em Santa Comba Dão no dia de anos do dito e não dei pela manif.
Redundância: Por cima da porta da igreja da Benedita, em letras garrafais, lê-se "Eu sou a porta".
Coprofilia: O anúncio do papel higiénico Renova é "O papel mais sexy do mundo".
Injustiça: Pergunta o Miguel se quem mora em Fátima também faz peregrinações a Fátima. Pareceu-nos um caso evidente de favorecimento indevido.
Qualquer coisa sem nome: Um anúncio num café em Fátima diz algo como "Aceitam-se idosos para casa particular. Pessoa com experiência".
Também aproveitei para ver uma série de belos espectáculos, actores novos apropriando-se orgulhosamente de palavras novas.

Top 2

Obrigado ao Alexandre - a única pessoa que eu conheço que viu a versão longa de quase treze horas do Out 1 (Noli me tangere) de Rivette - pelo simpático enlace. E ao Rogério Casanova pelo anagrama que me coube em sorte, "Fabricar abismo" - deve ser a isto que se chama retorno do recalcado.
Um desde o início, há quatro anos, outro há menos tempo, assim que o descobri, são dois daqueles blogs que eu visito de dez em dez minutos e ainda carrego obsessivamente no refresh.

sábado, 28 de abril de 2007

Não me quites, pá!

Tive durante muito tempo na mensagem do telemóvel (até a TMN mo apagar) o primeiro verso da canção do Brel, como quem diz "não desligues". Sinto-me portanto habilitado para rir e chorar com a menção feita à dita canção no Ípsilon de ontem, na entrevista a Camané: não só o título e o autor estão mal escritos como "l'ombre de ton chien" aparece traduzido por "o ombro do teu cão"!!! Entregando-se entrevistador e entrevistado à exegese da expressão, gostava de ver a que píncaros interpretativos chegariam com "l'ombre de ton ombre" ("o ombro do teu ombro"?) e "l'ombre de ta main" ("o ombro da tua mão"?).
Remexendo na ferida, aqui vai a citação completa:
É das canções de amor mais desesperadas que já alguém escreveu: "Deixa-me ser (...) [preocupação filológica com a elipse] o ombro do teu cão"...
Ele queria ser o ombro do cão dela porque [suspense] queria era estar ao pé dela [ombro a ombro], não queria que ela o deixasse [como quem abandona o ombro amigo de um cão]. E nessa fase da canção existe o desespero [que leva a dizer coisas de que depois nos arrependemos]: nem que seja uma mosca à tua volta, [que pousasse n'] o ombro do teu cão, qualquer coisa [desde que não tenha sentido], mas que eu possa estar ao pé de ti [é isso].
Eu gosto muito do Camané e de quase tudo o que escreve o João Bonifácio (o entrevistador). E é verdade que o que eles dizem, se assim parece um exercício surrealista, faria todo o sentido se a tradução estivesse certa. Mas tal como saiu é tão hilariante quanto deprimente, e esta ficará no top 3, (s)ombreando com a legenda que diz "Vamos fazer uma torrada" antes de os copos tilintarem (nunca vi, será lenda urbana?) e com outra que vi na encenação (e tradução) de Carlos Afonso Pereira da peça Fausto Morreu de Mark Ravenhill, onde uma personagem anunciava a sua saída com um "Estou fora daqui". Quem me dera.

quinta-feira, 26 de abril de 2007

Alan Ball 1945-2007, Alan Ball 1957-

Quando o criador de Six Feet Under leu a manchete sobre a morte do futebolista inglês, temeu por momentos, antes de respirar de alívio, que o supremo argumentista o tivesse escolhido a ele para protagonizar o segmento inicial do episódio, até ao fundido a branco. Nesses instantes de pânico, teve ainda sangue frio para congeminar uma narração post-mortem, naturalmente em off, de modo a sair em americana beleza.

segunda-feira, 2 de abril de 2007

I humbly thank you, well, well, well

Não devo ser o único blogger que acha que acompanhar a evolução do Sitemeter e do Technorati é muitas vezes mais interessante do que a postagem propriamente dita. Se não fossem esses perniciosos violadores da navegação alheia, não poderia estar agora a agradecer a quem teve a gentileza de lincar esta incipiente manufactura. Depois do Tiago, da Mãe da Alice e da Vallera, obrigado ao Filipe Moura, ao Zé Mário, à Charlotte e ao Pedro Correia.

domingo, 1 de abril de 2007

Caruma

Não sou grande espectador de dança e não faço ideia se determinado vocabulário coreográfico é interessante, ou datado, ou original. Mas sou sensível ao pensamento quando o consigo ver. Lembro-me bem de uma peça do João Fiadeiro, vista na cave d'a Capital: chamava-se I'm Sitting in a Room Different From the One You Are In Now e era possível seguir todo o raciocínio do princípio ao fim, feito de gestos, sons, fita autocolante e fotocopiadora. Ou Corpo de Baile, de Miguel Pereira, que foi há menos tempo mas de que me lembro menos, com o vestir e o despir, o indivíduo e o grupo, as pessoas e as cadeiras.
Caruma
de Madalena Victorino é talvez um espectáculo mais emotivo do que estes dois, menos conceptual e irónico. Mas não deixa de haver nexos nítidos que se vão tecendo: a recorrência dos grupos de mulheres + rapaz (as mães com os filhos pequenos, mas entre elas um pai; as mulheres a tentar vestir o casaco aos rapazes, mas entre elas um homem; as bailarinas, mas um é um rapaz); ou os movimentos "expressionistas" do início, com os dedos dos pés e das mãos bem separados, a lembrar os ramos secos de árvores que surgem no fim. Eles dançam, andam a pé, de bicicleta e de patins, tocam, cantam e falam; eu normalmente preciso de ir pensando, e senão encontro um ponto de apoio no espectáculo perco-me depressa noutras cogitações. Só que aqui há ainda outras hipóteses: um momento de emoção pura como o das crianças que mal andam deixadas no centro do palco pelas mães; ou o simples prazer de ouvir uma história como a da "Maria dos Prazeres" e o seu cão, entre Gracia e o cemitério de Montjuic.

sábado, 31 de março de 2007

Auto-referencialidade

Este é o único post deste blog sobre a polémica do Salazar.
[Já o cartaz do PNR foi remetido para uma nota de rodapé escrita dois dias depois.]

Gente boa

Não temos todos de ser boas pessoas. Mas temos de escolher bem as pessoas más de quem gostamos.

Memory Lame

Conversa na faculdade. Ele falava de um momento da associação (idade de ouro) onde a harmonia reinara e que eu por acaso tinha conhecido, sem dar por tanta harmonia. Lembrava-me bem de pelo menos dois outros "momentos" anteriores a esse que para ele era o passado mais recuado (hieróglifos que só para mim ainda guardavam algum sentido: e, Chave, D, H). Ou estou a ficar velho, mesmo sem dores no joelho, e deixando por isso de ter a razão pelo meu lado. Ou o tempo ali é diferente, uma vida em quatro anos e tudo escuro antes e depois. Ou ambas.

Rivette.com


Se não fosse a F., ainda não saberia da existência deste belo site a preto e branco e letra de máquina - o que só vem mostrar a seriedade com que ando a trabalhar nestas coisas. Como atenuante, o facto de só existir desde 13 de Fevereiro. Em francês não há, que eu saiba, nada de equivalente a esta "Order of the Exile", um sério e precioso "labour of love" de dois fãs americanos de Rivette - depois das retrospectivas em Londres e em Nova Iorque (e agora no Beaubourg), está em alta o interesse por este metteur en scène cada vez menos secreto. Lá estão, por exemplo, textos do livro Rivette: Texts and Interviews que Jonathan Rosenbaum organizou e que estava esgotado há muito; ou o artigo do mesmo Rosenbaum, "Work and Play in the House of Fiction", que pacientemente fotocopiei na biblioteca da Cinemateca e ainda anteontem reli.
À atenção, naturalmente, do Alexandre.