sexta-feira, 18 de maio de 2007
Jogos da blogosfera
1. Há o teste político que vi pela primeira vez aqui. Já o fiz duas vezes, e para minha irritação dá-me sempre "green" em primeiro lugar, seguido ou de "social liberal" ou de "communist"... Confesso que há várias perguntas cuja importância classifico como "High" mas onde não consigo decidir se concordo ou discordo, portanto ficam "I am not sure". O que eu queria mesmo era ser anarco-comunista. Talvez à terceira.
2. A escala Warhol proposta pelo Pedro, que já vi retomada nestes dois sítios. Não sei se escritores de teatro contam. E não me esqueço da voz da Jeanne Balibar com quem nervosamente (porque tinha de falar francês, bien sûr) meti conversa em Orléans a propósito do Rivette. Mas celebridade a sério para mim foi em Edimburgo: melhor ainda porque estava como espectador. Tínhamos ido ver o último espectáculo de uma peça no festival internacional, e fomos convidados para a festa em casa do autor. Na peça entrava o actor escocês mais famoso a seguir ao Ewan McGregor, o Billy Boyd de hobbitiana fama. Parece que havia por lá mais halflings, mas num sofá estava sentado um senhor muito louro, todo vestido de branco, descalço e com um gato ao colo. A certa altura o gato vai ter com o Miguel Borges. E o mestre zen pergunta:
- What's your name?
- I'm Miguel.
- Hi, I'm Viggo.
E o Miguel aperta a mão ao Aragorn em pessoa (só que em fase bem menos hirsuta). Foi o meu encontro com Hollywood. Não vou dizer mais nada sobre isto.
2. A escala Warhol proposta pelo Pedro, que já vi retomada nestes dois sítios. Não sei se escritores de teatro contam. E não me esqueço da voz da Jeanne Balibar com quem nervosamente (porque tinha de falar francês, bien sûr) meti conversa em Orléans a propósito do Rivette. Mas celebridade a sério para mim foi em Edimburgo: melhor ainda porque estava como espectador. Tínhamos ido ver o último espectáculo de uma peça no festival internacional, e fomos convidados para a festa em casa do autor. Na peça entrava o actor escocês mais famoso a seguir ao Ewan McGregor, o Billy Boyd de hobbitiana fama. Parece que havia por lá mais halflings, mas num sofá estava sentado um senhor muito louro, todo vestido de branco, descalço e com um gato ao colo. A certa altura o gato vai ter com o Miguel Borges. E o mestre zen pergunta:
- What's your name?
- I'm Miguel.
- Hi, I'm Viggo.
E o Miguel aperta a mão ao Aragorn em pessoa (só que em fase bem menos hirsuta). Foi o meu encontro com Hollywood. Não vou dizer mais nada sobre isto.
quinta-feira, 17 de maio de 2007
Eu, abaixo assinado
Hoje é dia de subscrever, concordar, assinar por baixo (e escolher um campo). Fui entregar à Rua das Portas de Santo Antão a "declaração de propositura" da candidatura de Helena Roseta, isto depois de ter actualizado o meu recenseamento no penúltimo dia possível graças à insistência do J. (vou sempre deixando tudo para última até passar o prazo, mas não desta vez). Ainda deu para conversar com a mãe de certa e determinada comentadora deste blog, ouvir em fundo uma discussão com um militante do PS que falava da autoridade d'Ele (Sócrates himself) e assistir às técnicas sempre complicadas de angariação de assinaturas: "Gostaria de contribuir para a candidatura de Helena Roseta?" - parece logo que se está a vender um time-sharing e as pessoas fogem ao ouvir o verbo que as faz pensar na carteira.
Concordo absolutamente com o que diz a Cláudia Castelo aqui: mesmo antes de saber em quem votar, é fundamental tornar viável esta candidatura (ainda para mais depois das peripécias muito suspeitas em volta da marcação das eleições), e por isso foi bonito José Sá Fernandes ter ele próprio assinado a declaração esta manhã.
Finalmente, subscrevo esta ideia de Miguel Vale de Almeida (aqui) e Rui Tavares (no Público de ontem, reproduzido aqui): uma aliança entre Roseta e Sá Fernandes seria uma boa forma de unir esforços em torno de ideias comuns, e talvez assim se fugisse ao discurso anti-partidos que marcou demagogicamente a campanha de Alegre.
Concordo absolutamente com o que diz a Cláudia Castelo aqui: mesmo antes de saber em quem votar, é fundamental tornar viável esta candidatura (ainda para mais depois das peripécias muito suspeitas em volta da marcação das eleições), e por isso foi bonito José Sá Fernandes ter ele próprio assinado a declaração esta manhã.
Finalmente, subscrevo esta ideia de Miguel Vale de Almeida (aqui) e Rui Tavares (no Público de ontem, reproduzido aqui): uma aliança entre Roseta e Sá Fernandes seria uma boa forma de unir esforços em torno de ideias comuns, e talvez assim se fugisse ao discurso anti-partidos que marcou demagogicamente a campanha de Alegre.
domingo, 13 de maio de 2007
terça-feira, 1 de maio de 2007
Retire o título
Andei este fim-de-semana para cima e para baixo na A1 e noutras estradas deste país que não conheço. Vi exemplos de:
Exibicionismo: os peregrinos que vão a Fátima, em Tondela como em Rio Maior, reconhecem-se pelos coletes fluorescentes (e estão sempre parados em volta de um carro com o porta-bagagens aberto).
Poesia: "Vou ser feliz e já volto!" é o slogan no outdoor da sex shop Afrodite 100%.
Idade dos porquês: Pergunta o neto no expresso para Viseu, baixinho: "Avó, és a favor ou contra o Salazar?" Resposta inaudível.
Ir a Roma e não ver o papa: passei em Santa Comba Dão no dia de anos do dito e não dei pela manif.
Redundância: Por cima da porta da igreja da Benedita, em letras garrafais, lê-se "Eu sou a porta".
Coprofilia: O anúncio do papel higiénico Renova é "O papel mais sexy do mundo".
Injustiça: Pergunta o Miguel se quem mora em Fátima também faz peregrinações a Fátima. Pareceu-nos um caso evidente de favorecimento indevido.
Qualquer coisa sem nome: Um anúncio num café em Fátima diz algo como "Aceitam-se idosos para casa particular. Pessoa com experiência".
Também aproveitei para ver uma série de belos espectáculos, actores novos apropriando-se orgulhosamente de palavras novas.
Exibicionismo: os peregrinos que vão a Fátima, em Tondela como em Rio Maior, reconhecem-se pelos coletes fluorescentes (e estão sempre parados em volta de um carro com o porta-bagagens aberto).
Poesia: "Vou ser feliz e já volto!" é o slogan no outdoor da sex shop Afrodite 100%.
Idade dos porquês: Pergunta o neto no expresso para Viseu, baixinho: "Avó, és a favor ou contra o Salazar?" Resposta inaudível.
Ir a Roma e não ver o papa: passei em Santa Comba Dão no dia de anos do dito e não dei pela manif.
Redundância: Por cima da porta da igreja da Benedita, em letras garrafais, lê-se "Eu sou a porta".
Coprofilia: O anúncio do papel higiénico Renova é "O papel mais sexy do mundo".
Injustiça: Pergunta o Miguel se quem mora em Fátima também faz peregrinações a Fátima. Pareceu-nos um caso evidente de favorecimento indevido.
Qualquer coisa sem nome: Um anúncio num café em Fátima diz algo como "Aceitam-se idosos para casa particular. Pessoa com experiência".
Também aproveitei para ver uma série de belos espectáculos, actores novos apropriando-se orgulhosamente de palavras novas.
Top 2
Obrigado ao Alexandre - a única pessoa que eu conheço que viu a versão longa de quase treze horas do Out 1 (Noli me tangere) de Rivette - pelo simpático enlace. E ao Rogério Casanova pelo anagrama que me coube em sorte, "Fabricar abismo" - deve ser a isto que se chama retorno do recalcado.
Um desde o início, há quatro anos, outro há menos tempo, assim que o descobri, são dois daqueles blogs que eu visito de dez em dez minutos e ainda carrego obsessivamente no refresh.
Um desde o início, há quatro anos, outro há menos tempo, assim que o descobri, são dois daqueles blogs que eu visito de dez em dez minutos e ainda carrego obsessivamente no refresh.
sábado, 28 de abril de 2007
Não me quites, pá!
Tive durante muito tempo na mensagem do telemóvel (até a TMN mo apagar) o primeiro verso da canção do Brel, como quem diz "não desligues". Sinto-me portanto habilitado para rir e chorar com a menção feita à dita canção no Ípsilon de ontem, na entrevista a Camané: não só o título e o autor estão mal escritos como "l'ombre de ton chien" aparece traduzido por "o ombro do teu cão"!!! Entregando-se entrevistador e entrevistado à exegese da expressão, gostava de ver a que píncaros interpretativos chegariam com "l'ombre de ton ombre" ("o ombro do teu ombro"?) e "l'ombre de ta main" ("o ombro da tua mão"?).
Remexendo na ferida, aqui vai a citação completa:
Remexendo na ferida, aqui vai a citação completa:
É das canções de amor mais desesperadas que já alguém escreveu: "Deixa-me ser (...) [preocupação filológica com a elipse] o ombro do teu cão"...Eu gosto muito do Camané e de quase tudo o que escreve o João Bonifácio (o entrevistador). E é verdade que o que eles dizem, se assim parece um exercício surrealista, faria todo o sentido se a tradução estivesse certa. Mas tal como saiu é tão hilariante quanto deprimente, e esta ficará no top 3, (s)ombreando com a legenda que diz "Vamos fazer uma torrada" antes de os copos tilintarem (nunca vi, será lenda urbana?) e com outra que vi na encenação (e tradução) de Carlos Afonso Pereira da peça Fausto Morreu de Mark Ravenhill, onde uma personagem anunciava a sua saída com um "Estou fora daqui". Quem me dera.
Ele queria ser o ombro do cão dela porque [suspense] queria era estar ao pé dela [ombro a ombro], não queria que ela o deixasse [como quem abandona o ombro amigo de um cão]. E nessa fase da canção existe o desespero [que leva a dizer coisas de que depois nos arrependemos]: nem que seja uma mosca à tua volta, [que pousasse n'] o ombro do teu cão, qualquer coisa [desde que não tenha sentido], mas que eu possa estar ao pé de ti [é isso].
quinta-feira, 26 de abril de 2007
Alan Ball 1945-2007, Alan Ball 1957-
Quando o criador de Six Feet Under leu a manchete sobre a morte do futebolista inglês, temeu por momentos, antes de respirar de alívio, que o supremo argumentista o tivesse escolhido a ele para protagonizar o segmento inicial do episódio, até ao fundido a branco. Nesses instantes de pânico, teve ainda sangue frio para congeminar uma narração post-mortem, naturalmente em off, de modo a sair em americana beleza.
sexta-feira, 13 de abril de 2007
segunda-feira, 2 de abril de 2007
I humbly thank you, well, well, well
Não devo ser o único blogger que acha que acompanhar a evolução do Sitemeter e do Technorati é muitas vezes mais interessante do que a postagem propriamente dita. Se não fossem esses perniciosos violadores da navegação alheia, não poderia estar agora a agradecer a quem teve a gentileza de lincar esta incipiente manufactura. Depois do Tiago, da Mãe da Alice e da Vallera, obrigado ao Filipe Moura, ao Zé Mário, à Charlotte e ao Pedro Correia.
domingo, 1 de abril de 2007
Caruma
Não sou grande espectador de dança e não faço ideia se determinado vocabulário coreográfico é interessante, ou datado, ou original. Mas sou sensível ao pensamento quando o consigo ver. Lembro-me bem de uma peça do João Fiadeiro, vista na cave d'a Capital: chamava-se I'm Sitting in a Room Different From the One You Are In Now e era possível seguir todo o raciocínio do princípio ao fim, feito de gestos, sons, fita autocolante e fotocopiadora. Ou Corpo de Baile, de Miguel Pereira, que foi há menos tempo mas de que me lembro menos, com o vestir e o despir, o indivíduo e o grupo, as pessoas e as cadeiras.
Caruma de Madalena Victorino é talvez um espectáculo mais emotivo do que estes dois, menos conceptual e irónico. Mas não deixa de haver nexos nítidos que se vão tecendo: a recorrência dos grupos de mulheres + rapaz (as mães com os filhos pequenos, mas entre elas um pai; as mulheres a tentar vestir o casaco aos rapazes, mas entre elas um homem; as bailarinas, mas um é um rapaz); ou os movimentos "expressionistas" do início, com os dedos dos pés e das mãos bem separados, a lembrar os ramos secos de árvores que surgem no fim. Eles dançam, andam a pé, de bicicleta e de patins, tocam, cantam e falam; eu normalmente preciso de ir pensando, e senão encontro um ponto de apoio no espectáculo perco-me depressa noutras cogitações. Só que aqui há ainda outras hipóteses: um momento de emoção pura como o das crianças que mal andam deixadas no centro do palco pelas mães; ou o simples prazer de ouvir uma história como a da "Maria dos Prazeres" e o seu cão, entre Gracia e o cemitério de Montjuic.
Caruma de Madalena Victorino é talvez um espectáculo mais emotivo do que estes dois, menos conceptual e irónico. Mas não deixa de haver nexos nítidos que se vão tecendo: a recorrência dos grupos de mulheres + rapaz (as mães com os filhos pequenos, mas entre elas um pai; as mulheres a tentar vestir o casaco aos rapazes, mas entre elas um homem; as bailarinas, mas um é um rapaz); ou os movimentos "expressionistas" do início, com os dedos dos pés e das mãos bem separados, a lembrar os ramos secos de árvores que surgem no fim. Eles dançam, andam a pé, de bicicleta e de patins, tocam, cantam e falam; eu normalmente preciso de ir pensando, e senão encontro um ponto de apoio no espectáculo perco-me depressa noutras cogitações. Só que aqui há ainda outras hipóteses: um momento de emoção pura como o das crianças que mal andam deixadas no centro do palco pelas mães; ou o simples prazer de ouvir uma história como a da "Maria dos Prazeres" e o seu cão, entre Gracia e o cemitério de Montjuic.
sábado, 31 de março de 2007
Auto-referencialidade™
Este é o único post deste blog sobre a polémica do Salazar.
[Já o cartaz do PNR foi remetido para uma nota de rodapé escrita dois dias depois.]
[Já o cartaz do PNR foi remetido para uma nota de rodapé escrita dois dias depois.]
Gente boa
Não temos todos de ser boas pessoas. Mas temos de escolher bem as pessoas más de quem gostamos.
Memory Lame
Conversa na faculdade. Ele falava de um momento da associação (idade de ouro) onde a harmonia reinara e que eu por acaso tinha conhecido, sem dar por tanta harmonia. Lembrava-me bem de pelo menos dois outros "momentos" anteriores a esse que para ele era o passado mais recuado (hieróglifos que só para mim ainda guardavam algum sentido: e, Chave, D, H). Ou estou a ficar velho, mesmo sem dores no joelho, e deixando por isso de ter a razão pelo meu lado. Ou o tempo ali é diferente, uma vida em quatro anos e tudo escuro antes e depois. Ou ambas.
Rivette.com

Se não fosse a F., ainda não saberia da existência deste belo site a preto e branco e letra de máquina - o que só vem mostrar a seriedade com que ando a trabalhar nestas coisas. Como atenuante, o facto de só existir desde 13 de Fevereiro. Em francês não há, que eu saiba, nada de equivalente a esta "Order of the Exile", um sério e precioso "labour of love" de dois fãs americanos de Rivette - depois das retrospectivas em Londres e em Nova Iorque (e agora no Beaubourg), está em alta o interesse por este metteur en scène cada vez menos secreto. Lá estão, por exemplo, textos do livro Rivette: Texts and Interviews que Jonathan Rosenbaum organizou e que estava esgotado há muito; ou o artigo do mesmo Rosenbaum, "Work and Play in the House of Fiction", que pacientemente fotocopiei na biblioteca da Cinemateca e ainda anteontem reli.
À atenção, naturalmente, do Alexandre.
quarta-feira, 28 de março de 2007
Letras - Breaking News
Graças ao LPF que ficou lá até estas horas e ao Rui Guilherme Lopes, que era o presidente da mesa da RGA, posso desde já avançar (sempre quis dizer isto) que a lista U ganhou com 818 votos contra 81 da lista x (a de extrema-direita). Houve ainda 24 votos brancos e 19 nulos. Em percentagem de votos expressos, isto dá uma vitória de 90,99% contra 9,01%. A contagem decorreu insolitamente à porta fechada e não houve incidentes. Relativamente ao ano passado, a participação dos estudantes terá pelo menos duplicado: um bom sinal, mesmo se o total de votantes não ultrapassa os mil.
Ao passar hoje pela faculdade percebi que ainda não era desta que uma lista assim colocaria reais problemas. Nem sabiam que podiam concorrer também à mesa da RGA e ao Conselho Fiscal, portanto só apresentaram lista para a AE; e os papéis espalhados pelas paredes eram confrangedores, não havia uma ideia nítida ou uma frase bem construída. Erros como a boa relação da AE com o Conselho Directivo ser "de salutar" (devem ser alunos de Latim); e propostas como "para o teatro aceitamos sugestões" (até o Rui Rio sabe que teatro é para acabar). Isto no meio dos tais protestos de que são uma lista "apolítica" (devem querer dizer apartidária), com afirmações de que têm pessoas de várias cores, ideologias e até religiões na lista (como aquelas pessoas que dizem que "têm amigos que são"). Só da orientação sexual é que não falam, também não é preciso exagerar.
Mais assustadores são os vários autocolantes do PNR nas casas de banho. E o facto de esta gente (ali ou noutro sítio, por exemplo nas escolas secundárias) numa próxima oportunidade voltar com mais força e tendo aprendido mais uns truques do "jogo democrático".
Quinta-feira às 15h30, na esplanada da faculdade, há uma conversa com o SOS Racismo, Eduarda Dionísio e José Mário Branco. Vemo-nos lá?
Ao passar hoje pela faculdade percebi que ainda não era desta que uma lista assim colocaria reais problemas. Nem sabiam que podiam concorrer também à mesa da RGA e ao Conselho Fiscal, portanto só apresentaram lista para a AE; e os papéis espalhados pelas paredes eram confrangedores, não havia uma ideia nítida ou uma frase bem construída. Erros como a boa relação da AE com o Conselho Directivo ser "de salutar" (devem ser alunos de Latim); e propostas como "para o teatro aceitamos sugestões" (até o Rui Rio sabe que teatro é para acabar). Isto no meio dos tais protestos de que são uma lista "apolítica" (devem querer dizer apartidária), com afirmações de que têm pessoas de várias cores, ideologias e até religiões na lista (como aquelas pessoas que dizem que "têm amigos que são"). Só da orientação sexual é que não falam, também não é preciso exagerar.
Mais assustadores são os vários autocolantes do PNR nas casas de banho. E o facto de esta gente (ali ou noutro sítio, por exemplo nas escolas secundárias) numa próxima oportunidade voltar com mais força e tendo aprendido mais uns truques do "jogo democrático".
Quinta-feira às 15h30, na esplanada da faculdade, há uma conversa com o SOS Racismo, Eduarda Dionísio e José Mário Branco. Vemo-nos lá?
terça-feira, 27 de março de 2007
O Mural e o Moinho
Soube da situação em Letras por mail e pelo que li aqui, antes da capa do P de hoje. É obviamente preocupante que esta gente apareça sequer, e o clima de ameaça que se vive na Faculdade desde a tentativa de pintura do mural é repugnante. Não sei se, com base nos estatutos, a lista x (que se diz apolítica mas é faXista) poderia ter sido recusada; o que agora interessa é que, sete anos (!) desde que acabei o curso e participei numas eleições para a Associação de Estudantes, lá vou votar outra vez enquanto aluno de pós-graduação - a ver se a coisa não dá para o torto. Não faço ideia se as probabilidades de a lista x ganhar são fortes ou fracas, mas sei que não são precisos assim tantos votos para ganhar uma AE.
Lembro-me de com o Pedro Rodrigues ter feito um vídeo para a Abril em Maio onde entrevistávamos vários dos que "nasceram depois" (do 25 de Abril): a Mariana, o Omar, o Zé João... entre eles estava o Paulo Afonso, que na altura julgo trabalhava na Reitoria. Maldosamente pusemo-lo a repetir três vezes uma frase sobre a importância (política) de cada um "levar a água ao seu moinho". Hoje no P (sem link) o mesmo Paulo Afonso justifica a abstenção dos estudantes dizendo que estes vêem a AE como "uma rampa de lançamento de carreiras políticas". Não vejo nisso nenhum problema (é aliás este sentimento anti-políticos que faz com que nasçam listas de extrema-direita "apolíticas"), mas não deixa de ser cómico que o Paulo Afonso seja apresentado pela jornalista como "ex-dirigente académico e actual autarca".
Lembro-me de com o Pedro Rodrigues ter feito um vídeo para a Abril em Maio onde entrevistávamos vários dos que "nasceram depois" (do 25 de Abril): a Mariana, o Omar, o Zé João... entre eles estava o Paulo Afonso, que na altura julgo trabalhava na Reitoria. Maldosamente pusemo-lo a repetir três vezes uma frase sobre a importância (política) de cada um "levar a água ao seu moinho". Hoje no P (sem link) o mesmo Paulo Afonso justifica a abstenção dos estudantes dizendo que estes vêem a AE como "uma rampa de lançamento de carreiras políticas". Não vejo nisso nenhum problema (é aliás este sentimento anti-políticos que faz com que nasçam listas de extrema-direita "apolíticas"), mas não deixa de ser cómico que o Paulo Afonso seja apresentado pela jornalista como "ex-dirigente académico e actual autarca".
segunda-feira, 26 de março de 2007
O Valor do Vento
Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento
O vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras e
só entram nos meus versos as coisas de que gosto
O vento das árvores o vento dos cabelos
o vento do inverno o vento do verão
O vento é o melhor veículo que conheço
Só ele traz o perfume das flores só ele traz
a música que jaz à beira-mar em agosto
Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento
O vento actualmente vale oitenta escudos
Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto
ACTUALIZAÇÃO: o vidro do armário da cozinha custou seis euros; e não foi o vento, foi a Jackie.
O vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras e
só entram nos meus versos as coisas de que gosto
O vento das árvores o vento dos cabelos
o vento do inverno o vento do verão
O vento é o melhor veículo que conheço
Só ele traz o perfume das flores só ele traz
a música que jaz à beira-mar em agosto
Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento
O vento actualmente vale oitenta escudos
Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto
Ruy Belo, Homem de Palavra[s], 1970
ACTUALIZAÇÃO: o vidro do armário da cozinha custou seis euros; e não foi o vento, foi a Jackie.
North by Northwest ou o valor do vento

I am but mad north-northwest; when the wind is southerly I know a hawk from a handsaw.
Hamlet, II, 2
É possível que o título do filme de Hitchcock venha desta citação do Hamlet: NNW como a direcção da loucura, neste filme-itinerário que, desde que Cary Grant/Roger Thornhill é confundido com George Kaplan no bar do hotel Plaza, não pára um segundo, de Nova Iorque a Chigago até ao Monte Rushmore (sempre "in a northwesterly direction", um dos títulos provisórios). Há várias ligações com a peça, desde a intriga edipiana à falsa loucura na cena do leilão ("an antic disposition", diz o dinamarquês em I, 5) e até uma "peça dentro do filme", com o falso assassínio de Thornhill na cafetaria. Stanley Cavell tem um artigo de 1981 onde fala disto e muito mais.
Mas voltando à citação: a frase tem gerado problemas de interpretação que se concentram na distinção entre o "falcão" e a "serra" e suas eventuais alusões. Só que as dificuldades começam antes: se lermos só até ao ponto e vírgula, a loucura pode ser entendida como um ligeiro desvio da agulha em relação ao norte, que representaria a razão, o discernimento (é o que diz a nota da edição da Oxford); mas quando o sul entra em cena, parece que é a direcção do vento que determina a oscilação entre sanidade (quando sopra de sul) e loucura (quando de NNW). Em North by Northwest, longe de oscilar, o vento sopraria então incansavelmente não de mas para NNW, empurrando Cary Grant até ao precipício com as estátuas dos presidentes.
Nova complicação: tanto Hitchcock como o argumentista Ernest Lehman afirmaram ter percebido depois de concluído o filme que a direcção "north by northwest" não existe. Sempre achei estranho, porque pensei que correspondia ao português "nor-noroeste" e era uma variante da forma que aparece na citação do Hamlet. Mas parece que há mais na rosa-dos-ventos do que sonha a nossa geografia: o título do filme mistura NNW (north-northwest, nor-noroeste, 337,50º) e NWbN (northwest by north, noroeste por norte, 326,25º). North by Northwest é então uma direcção inventada, tal como o agente fictício George Kaplan - que melhor nome para a desrazão deste "Hitchcock picture to end all Hitchcock pictures"?
Nunca vi o filme de Rivette Noroît, que é um dos nomes do vento de noroeste (NW, noroeste, 315º). O título não pode deixar de ser uma homenagem assumida a Hitchcock. Temos então, de Shakespeare a Rivette, a agulha da razão progressivamente mais afastada do norte: NNW, NWbN, NW. Ou então é a loucura que muda como um cata-vento ("yet there is method in it", II, 2). Resta dizer que Noroît se inspira em The Revenger's Tragedy (1608) de Cyril Tourneur, peça que tem óbvias referências ao Hamlet.
Em português, North by Northwest chama-se, como é evidente, Intriga Internacional.
sábado, 24 de março de 2007
Andar a pé faz bem
E se um peão for sempre em frente transforma-se numa rainha, como a vallera já descobriu. Desde que não se ultrapassem as doses homeopáticas de Sarah Silverman...
De como se perde uma noite e depois ainda se tem a lata de confessar
Sinal dos tempos, antes sequer de pôr aqui imagens à antiga, daquelas que não mexem, já ando à pesca no YouTube. E estreio-me com 52 segundos de uma cómica que já tinha apanhado no Conan e no Leno; ao ler ontem o Stephen Merchant no Guardian fixei o nome - Sarah Silverman - e depois foram horas a ouvir coisas piores do que as que o Edward Norton diz ao espelho no 25th Hour, mas em versão de comédia musical (há canções delirantes). Como de costume com muita da comédia recente (é ver vários episódios seguidos do Curb Your Enthusiasm) acaba-se um bocadinho mal disposto, mas no dia seguinte já passou e tornámo-nos pessoas piores. E lá se foi a compostura do blog, uma eternidade a construir (desde segunda-feira!), um clique apenas a desbaratar.
É preciso que um espelho esteja aberto ou fechado
Le miroir pivote comme une porte, découvre un passage obscur, puis se referme; deux fois, trois fois, DEBORAH recommence le même mouvement.
Do outro lado, espreitou a Mãe da Alice e do Pedro. Olhei para o relógio: não tinha pressa nenhuma. Mas como não viu girafas, a Alice foi para o YouTube.
Jacques Rivette, Phénix
Do outro lado, espreitou a Mãe da Alice e do Pedro. Olhei para o relógio: não tinha pressa nenhuma. Mas como não viu girafas, a Alice foi para o YouTube.
sexta-feira, 23 de março de 2007
Literatura Portuguesa II
o sol é grande caem co’a calma as aves as sombras não mas a memória delas das sombras não mas de passarem aves passam as aves em seu voo rasante desde sá de miranda até jorge de sena mas sem sol grande as aves não se movem nem já não caem com a calma as aves tenho uma visão do corpo da ave como o seu cadáver calmo já caem com a calma as avestruzes o sol é grande as sombras não passam as aves em seu voo rasante mas sem sol grande tenho uma visão do corpo da ave com a calma o sol é grande mas sem sol grande tenho a calma o sol a calma soma
quarta-feira, 21 de março de 2007
Post de 10 de Fevereiro
O meu contributo para a campanha do referendo foi ter usado um pin durante um dia: depois ficou esquecido na camisola e só o recuperei depois da votação. Mas gostava de ter escrito na altura qualquer coisa como o que segue.
Pareceu-me claro que havia uma interferência entre duas opções dicotómicas: a IVG e a própria ideia de referendo. Num referendo só há duas hipóteses, sim ou não; com a IVG é o mesmo, ou se faz ou não se faz. Não há alternativas, zonas cinzentas, continuidades (ao contrário, por exemplo, da regionalização). A analogia entre duas escolhas de sim ou não (a pergunta e o assunto da pergunta) gera portanto uma confusão possível entre a decisão individual da mulher que pensa abortar e a decisão individual do eleitor a quem se pede uma opinião sobre a despenalização da IVG em determinadas circunstâncias.
O erro (histérico) de muitos defensores do não foi, em vez de se imaginarem legisladores (é o esforço ficcional que nos pede um referendo), alucinarem-se no lugar da mulher que vai ou não abortar: "Abortar por opção sabendo que já bate um coração?/ Não obrigada" - assim mesmo, no feminino (e sem vírgula, o que é outra conversa). [Uma variante de alguns “nãos” masculinos foi porem-se no papel do pai que não tem uma palavra a dizer, como se houvesse outro caminho que não a escolha da mulher em caso de empate…]
Para além disso, ao projectarem-se numa situação virtual concreta, os que votaram não construíram um “outro” demasiado esquemático e parecido com o “mesmo”: a imaginação não chega para tudo e não é possível inventariar todos os casos individuais de mulheres que põem a hipótese de abortar. É também desta alucinação que vem a ideia de que a opinião sobre a IVG é uma questão de consciência individual: é verdade, mas só para a mulher que está grávida. O transfert operado por muitos defensores do não, ao tentarem que a alteração do código penal de um país caiba no espaço de decisão de uma mulher fictícia, é de uma enorme violência para as mulheres reais.
[Como ainda se fala por aí de umas comissões de aconselhamento (mais uma vez, os representantes de uma máquina sem rosto a substituírem-se à decisão pessoal), talvez este texto venha a tempo de me fazer esquecer a história do pin.]
Pareceu-me claro que havia uma interferência entre duas opções dicotómicas: a IVG e a própria ideia de referendo. Num referendo só há duas hipóteses, sim ou não; com a IVG é o mesmo, ou se faz ou não se faz. Não há alternativas, zonas cinzentas, continuidades (ao contrário, por exemplo, da regionalização). A analogia entre duas escolhas de sim ou não (a pergunta e o assunto da pergunta) gera portanto uma confusão possível entre a decisão individual da mulher que pensa abortar e a decisão individual do eleitor a quem se pede uma opinião sobre a despenalização da IVG em determinadas circunstâncias.
O erro (histérico) de muitos defensores do não foi, em vez de se imaginarem legisladores (é o esforço ficcional que nos pede um referendo), alucinarem-se no lugar da mulher que vai ou não abortar: "Abortar por opção sabendo que já bate um coração?/ Não obrigada" - assim mesmo, no feminino (e sem vírgula, o que é outra conversa). [Uma variante de alguns “nãos” masculinos foi porem-se no papel do pai que não tem uma palavra a dizer, como se houvesse outro caminho que não a escolha da mulher em caso de empate…]
Para além disso, ao projectarem-se numa situação virtual concreta, os que votaram não construíram um “outro” demasiado esquemático e parecido com o “mesmo”: a imaginação não chega para tudo e não é possível inventariar todos os casos individuais de mulheres que põem a hipótese de abortar. É também desta alucinação que vem a ideia de que a opinião sobre a IVG é uma questão de consciência individual: é verdade, mas só para a mulher que está grávida. O transfert operado por muitos defensores do não, ao tentarem que a alteração do código penal de um país caiba no espaço de decisão de uma mulher fictícia, é de uma enorme violência para as mulheres reais.
[Como ainda se fala por aí de umas comissões de aconselhamento (mais uma vez, os representantes de uma máquina sem rosto a substituírem-se à decisão pessoal), talvez este texto venha a tempo de me fazer esquecer a história do pin.]
Lição nº 2
Un peu de poudre, un peu de rouge, une actrice est toujours jeune.
Jean Renoir, Le Carrosse d'or, 1953
Subscrever:
Mensagens (Atom)

