sábado, 24 de março de 2007
Andar a pé faz bem
E se um peão for sempre em frente transforma-se numa rainha, como a vallera já descobriu. Desde que não se ultrapassem as doses homeopáticas de Sarah Silverman...
De como se perde uma noite e depois ainda se tem a lata de confessar
Sinal dos tempos, antes sequer de pôr aqui imagens à antiga, daquelas que não mexem, já ando à pesca no YouTube. E estreio-me com 52 segundos de uma cómica que já tinha apanhado no Conan e no Leno; ao ler ontem o Stephen Merchant no Guardian fixei o nome - Sarah Silverman - e depois foram horas a ouvir coisas piores do que as que o Edward Norton diz ao espelho no 25th Hour, mas em versão de comédia musical (há canções delirantes). Como de costume com muita da comédia recente (é ver vários episódios seguidos do Curb Your Enthusiasm) acaba-se um bocadinho mal disposto, mas no dia seguinte já passou e tornámo-nos pessoas piores. E lá se foi a compostura do blog, uma eternidade a construir (desde segunda-feira!), um clique apenas a desbaratar.
É preciso que um espelho esteja aberto ou fechado
Le miroir pivote comme une porte, découvre un passage obscur, puis se referme; deux fois, trois fois, DEBORAH recommence le même mouvement.
Do outro lado, espreitou a Mãe da Alice e do Pedro. Olhei para o relógio: não tinha pressa nenhuma. Mas como não viu girafas, a Alice foi para o YouTube.
Jacques Rivette, Phénix
Do outro lado, espreitou a Mãe da Alice e do Pedro. Olhei para o relógio: não tinha pressa nenhuma. Mas como não viu girafas, a Alice foi para o YouTube.
sexta-feira, 23 de março de 2007
Literatura Portuguesa II
o sol é grande caem co’a calma as aves as sombras não mas a memória delas das sombras não mas de passarem aves passam as aves em seu voo rasante desde sá de miranda até jorge de sena mas sem sol grande as aves não se movem nem já não caem com a calma as aves tenho uma visão do corpo da ave como o seu cadáver calmo já caem com a calma as avestruzes o sol é grande as sombras não passam as aves em seu voo rasante mas sem sol grande tenho uma visão do corpo da ave com a calma o sol é grande mas sem sol grande tenho a calma o sol a calma soma
quarta-feira, 21 de março de 2007
Post de 10 de Fevereiro
O meu contributo para a campanha do referendo foi ter usado um pin durante um dia: depois ficou esquecido na camisola e só o recuperei depois da votação. Mas gostava de ter escrito na altura qualquer coisa como o que segue.
Pareceu-me claro que havia uma interferência entre duas opções dicotómicas: a IVG e a própria ideia de referendo. Num referendo só há duas hipóteses, sim ou não; com a IVG é o mesmo, ou se faz ou não se faz. Não há alternativas, zonas cinzentas, continuidades (ao contrário, por exemplo, da regionalização). A analogia entre duas escolhas de sim ou não (a pergunta e o assunto da pergunta) gera portanto uma confusão possível entre a decisão individual da mulher que pensa abortar e a decisão individual do eleitor a quem se pede uma opinião sobre a despenalização da IVG em determinadas circunstâncias.
O erro (histérico) de muitos defensores do não foi, em vez de se imaginarem legisladores (é o esforço ficcional que nos pede um referendo), alucinarem-se no lugar da mulher que vai ou não abortar: "Abortar por opção sabendo que já bate um coração?/ Não obrigada" - assim mesmo, no feminino (e sem vírgula, o que é outra conversa). [Uma variante de alguns “nãos” masculinos foi porem-se no papel do pai que não tem uma palavra a dizer, como se houvesse outro caminho que não a escolha da mulher em caso de empate…]
Para além disso, ao projectarem-se numa situação virtual concreta, os que votaram não construíram um “outro” demasiado esquemático e parecido com o “mesmo”: a imaginação não chega para tudo e não é possível inventariar todos os casos individuais de mulheres que põem a hipótese de abortar. É também desta alucinação que vem a ideia de que a opinião sobre a IVG é uma questão de consciência individual: é verdade, mas só para a mulher que está grávida. O transfert operado por muitos defensores do não, ao tentarem que a alteração do código penal de um país caiba no espaço de decisão de uma mulher fictícia, é de uma enorme violência para as mulheres reais.
[Como ainda se fala por aí de umas comissões de aconselhamento (mais uma vez, os representantes de uma máquina sem rosto a substituírem-se à decisão pessoal), talvez este texto venha a tempo de me fazer esquecer a história do pin.]
Pareceu-me claro que havia uma interferência entre duas opções dicotómicas: a IVG e a própria ideia de referendo. Num referendo só há duas hipóteses, sim ou não; com a IVG é o mesmo, ou se faz ou não se faz. Não há alternativas, zonas cinzentas, continuidades (ao contrário, por exemplo, da regionalização). A analogia entre duas escolhas de sim ou não (a pergunta e o assunto da pergunta) gera portanto uma confusão possível entre a decisão individual da mulher que pensa abortar e a decisão individual do eleitor a quem se pede uma opinião sobre a despenalização da IVG em determinadas circunstâncias.
O erro (histérico) de muitos defensores do não foi, em vez de se imaginarem legisladores (é o esforço ficcional que nos pede um referendo), alucinarem-se no lugar da mulher que vai ou não abortar: "Abortar por opção sabendo que já bate um coração?/ Não obrigada" - assim mesmo, no feminino (e sem vírgula, o que é outra conversa). [Uma variante de alguns “nãos” masculinos foi porem-se no papel do pai que não tem uma palavra a dizer, como se houvesse outro caminho que não a escolha da mulher em caso de empate…]
Para além disso, ao projectarem-se numa situação virtual concreta, os que votaram não construíram um “outro” demasiado esquemático e parecido com o “mesmo”: a imaginação não chega para tudo e não é possível inventariar todos os casos individuais de mulheres que põem a hipótese de abortar. É também desta alucinação que vem a ideia de que a opinião sobre a IVG é uma questão de consciência individual: é verdade, mas só para a mulher que está grávida. O transfert operado por muitos defensores do não, ao tentarem que a alteração do código penal de um país caiba no espaço de decisão de uma mulher fictícia, é de uma enorme violência para as mulheres reais.
[Como ainda se fala por aí de umas comissões de aconselhamento (mais uma vez, os representantes de uma máquina sem rosto a substituírem-se à decisão pessoal), talvez este texto venha a tempo de me fazer esquecer a história do pin.]
Lição nº 2
Un peu de poudre, un peu de rouge, une actrice est toujours jeune.
Jean Renoir, Le Carrosse d'or, 1953
Lição nº 1
Porque no teatro é tudo a fingir, a coisa mais importante no teatro é a honestidade.
Luís Miguel Cintra
programa de Anfitrião de António José da Silva,
grupo de teatro da Faculdade de Letras, 1969
grupo de teatro da Faculdade de Letras, 1969
terça-feira, 20 de março de 2007
The Art of Posting
O Tiago Cavaco destilou os três primeiros posts deste proto-blog numa só imagem, com ironia e talvez uma ligação directa ao meu inconsciente. Damn. Isto quem sabe, sabe.
segunda-feira, 19 de março de 2007
Lonesome cowboy
A julgar pelos aniversários que se têm comemorado, ando a ler blogs há mais de quatro anos. Coluna Infame, Blog de Esquerda, umblogsobrekleist, Voz do Deserto, País Relativo, Gato Fedorento... Cheguei a escrever aqui, intermitentemente, com ausências prolongadíssimas e regressos por vezes intempestivos. Um blog colectivo tem esse conforto, há quase sempre alguém que se lembra de qualquer coisa para dizer. E a partir de certa altura torna-se cada vez mais difícil escrever, o próximo post depois de tanto tempo tem de ser significativo, pensado, trabalhado. Nunca chega o momento certo, ou quando chega lá vem outro colaborador que decide escrever dez de seguida, cheio de som e fúria, imagens e links, afundando o que a custo postámos nos confins da página ou até, com alguma sorte, directamente nos arquivos. O BdEII, onde tanto gostei de escrever algumas coisas (thanks, ZM), estava muitas vezes em hora de ponta, o que é óptimo para ter leitores e debate e comentários, e isto às vezes passados segundos; mas às vezes torna-se num campo de batalha e nem sempre estamos preparados (eu não estava) para a violência das reacções, injusta ou não, mas que agride e invade sempre. Provas de virilidade.
Há muito tempo que andava a pensar ter um blog I could call my own, sempre quis abrir o blogger e seguir as instruções, escolher um template, arrumar os links, e agora? Mas não tinha título, não tinha tempo, sabia que passado o entusiasmo inicial a coisa morria. Continuei a ler, quase só blogs individuais por causa do silêncio, é só olhar para a lista ali à direita. E depois de desesperar com as parcas actualizações destes "favorites" (sim, sou eu quem faz "refresh" várias vezes para ter a certeza de que não há nada novo), pensei que também eu podia escrever assim pouco como às vezes alguns deles. Nada durante um mês? Não faz mal: também eu quero escrever um post ameaçando poucos posts no futuro próximo. Sem dramas ou com muitas mortes e ressurreições, porque não? Mas ir falando, balbuciando umas frases, mal, incerto quanto ao tom, sem graça muitas vezes, baixinho. Para mim, para algumas pessoas a quem talvez comunique cheio de orgulho a abertura de portas, "umbiguista" com certeza e arrependendo-me na manhã seguinte. Talvez seja assim.
Há muito tempo que andava a pensar ter um blog I could call my own, sempre quis abrir o blogger e seguir as instruções, escolher um template, arrumar os links, e agora? Mas não tinha título, não tinha tempo, sabia que passado o entusiasmo inicial a coisa morria. Continuei a ler, quase só blogs individuais por causa do silêncio, é só olhar para a lista ali à direita. E depois de desesperar com as parcas actualizações destes "favorites" (sim, sou eu quem faz "refresh" várias vezes para ter a certeza de que não há nada novo), pensei que também eu podia escrever assim pouco como às vezes alguns deles. Nada durante um mês? Não faz mal: também eu quero escrever um post ameaçando poucos posts no futuro próximo. Sem dramas ou com muitas mortes e ressurreições, porque não? Mas ir falando, balbuciando umas frases, mal, incerto quanto ao tom, sem graça muitas vezes, baixinho. Para mim, para algumas pessoas a quem talvez comunique cheio de orgulho a abertura de portas, "umbiguista" com certeza e arrependendo-me na manhã seguinte. Talvez seja assim.
Mas, na manhã seguinte...
Porquê "usine" e não "atelier", fábrica e não oficina? Sarah Bernhardt, segundo Rivette e muito antes de Warhol, refere-se assim ao lugar onde o artista se produz a si mesmo. O teatro enquanto máquina construída a uma escala não-humana, povoada por uma multidão de operários, uns mais aristocratas do que outros.
A fábrica é o que do teatro os espectadores não vêem, daí a escuridão. São os bastidores, os camarins, os corredores, as catacumbas. A luz de qualquer modo é sempre artificial, o teatro é um mundo dentro do mundo onde nem sempre se sabe quando é dia e quando noite.
Na sala diante do palco a sociedade exibe-se, estratificada, da plateia aos camarotes e balcões, mas na sombra conspira-se e transpira-se, o trabalho é secreto, fabril e febril.
Mas estamos no fim do século XIX. E não é por esses dias que aparece outra fábrica, de sombras mas agora projectadas, a maquinaria à mostra e não escondida, exibindo-se como novidade e conquista da arte na era da reprodutibilidade técnica? Gorki chamou "mundo cinzento" a este teatro virado do avesso.
A fábrica é o que do teatro os espectadores não vêem, daí a escuridão. São os bastidores, os camarins, os corredores, as catacumbas. A luz de qualquer modo é sempre artificial, o teatro é um mundo dentro do mundo onde nem sempre se sabe quando é dia e quando noite.
Na sala diante do palco a sociedade exibe-se, estratificada, da plateia aos camarotes e balcões, mas na sombra conspira-se e transpira-se, o trabalho é secreto, fabril e febril.
Mas estamos no fim do século XIX. E não é por esses dias que aparece outra fábrica, de sombras mas agora projectadas, a maquinaria à mostra e não escondida, exibindo-se como novidade e conquista da arte na era da reprodutibilidade técnica? Gorki chamou "mundo cinzento" a este teatro virado do avesso.
A maior parte das vezes, começava assim
"Fábrica sombria" será uma expressão de Sarah Bernhardt para se referir ao teatro como lugar onde a actriz "lapida os seus diamantes na penumbra". Aqui não vai haver de certeza diamantes, penumbra é provável que sim. As segundas aspas são citação já não da Bernhardt mas de um argumento de cinema chamado Phénix, escrito (e nunca filmado) por Jacques Rivette. Foi aí que encontrei a primeira citação e uso-a como título porque é suposto eu ter alguma coisa escrita sobre este guião daqui a um mês: a fábrica entra portanto agora (oficialmente) em laboração. Isto não quer dizer que desse trabalho se veja aqui alguma coisa; o que interessa é que o motor da escrita comece a rodar, mais ou menos secretamente, e pode ser que o blog sirva para ir dando uso ao teclado. Nada me garante que vá conseguir, e então o texto prometido, assim como o blog, não passarão de espectros, assombrações. Não é Phénix (é o que diz na capa do livro) um "filme fantasma"? Bu.
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