A julgar pelos aniversários que se têm comemorado, ando a ler blogs há mais de quatro anos. Coluna Infame, Blog de Esquerda, umblogsobrekleist, Voz do Deserto, País Relativo, Gato Fedorento... Cheguei a escrever aqui, intermitentemente, com ausências prolongadíssimas e regressos por vezes intempestivos. Um blog colectivo tem esse conforto, há quase sempre alguém que se lembra de qualquer coisa para dizer. E a partir de certa altura torna-se cada vez mais difícil escrever, o próximo post depois de tanto tempo tem de ser significativo, pensado, trabalhado. Nunca chega o momento certo, ou quando chega lá vem outro colaborador que decide escrever dez de seguida, cheio de som e fúria, imagens e links, afundando o que a custo postámos nos confins da página ou até, com alguma sorte, directamente nos arquivos. O BdEII, onde tanto gostei de escrever algumas coisas (thanks, ZM), estava muitas vezes em hora de ponta, o que é óptimo para ter leitores e debate e comentários, e isto às vezes passados segundos; mas às vezes torna-se num campo de batalha e nem sempre estamos preparados (eu não estava) para a violência das reacções, injusta ou não, mas que agride e invade sempre. Provas de virilidade.
Há muito tempo que andava a pensar ter um blog I could call my own, sempre quis abrir o blogger e seguir as instruções, escolher um template, arrumar os links, e agora? Mas não tinha título, não tinha tempo, sabia que passado o entusiasmo inicial a coisa morria. Continuei a ler, quase só blogs individuais por causa do silêncio, é só olhar para a lista ali à direita. E depois de desesperar com as parcas actualizações destes "favorites" (sim, sou eu quem faz "refresh" várias vezes para ter a certeza de que não há nada novo), pensei que também eu podia escrever assim pouco como às vezes alguns deles. Nada durante um mês? Não faz mal: também eu quero escrever um post ameaçando poucos posts no futuro próximo. Sem dramas ou com muitas mortes e ressurreições, porque não? Mas ir falando, balbuciando umas frases, mal, incerto quanto ao tom, sem graça muitas vezes, baixinho. Para mim, para algumas pessoas a quem talvez comunique cheio de orgulho a abertura de portas, "umbiguista" com certeza e arrependendo-me na manhã seguinte. Talvez seja assim.
segunda-feira, 19 de março de 2007
Mas, na manhã seguinte...
Porquê "usine" e não "atelier", fábrica e não oficina? Sarah Bernhardt, segundo Rivette e muito antes de Warhol, refere-se assim ao lugar onde o artista se produz a si mesmo. O teatro enquanto máquina construída a uma escala não-humana, povoada por uma multidão de operários, uns mais aristocratas do que outros.
A fábrica é o que do teatro os espectadores não vêem, daí a escuridão. São os bastidores, os camarins, os corredores, as catacumbas. A luz de qualquer modo é sempre artificial, o teatro é um mundo dentro do mundo onde nem sempre se sabe quando é dia e quando noite.
Na sala diante do palco a sociedade exibe-se, estratificada, da plateia aos camarotes e balcões, mas na sombra conspira-se e transpira-se, o trabalho é secreto, fabril e febril.
Mas estamos no fim do século XIX. E não é por esses dias que aparece outra fábrica, de sombras mas agora projectadas, a maquinaria à mostra e não escondida, exibindo-se como novidade e conquista da arte na era da reprodutibilidade técnica? Gorki chamou "mundo cinzento" a este teatro virado do avesso.
A fábrica é o que do teatro os espectadores não vêem, daí a escuridão. São os bastidores, os camarins, os corredores, as catacumbas. A luz de qualquer modo é sempre artificial, o teatro é um mundo dentro do mundo onde nem sempre se sabe quando é dia e quando noite.
Na sala diante do palco a sociedade exibe-se, estratificada, da plateia aos camarotes e balcões, mas na sombra conspira-se e transpira-se, o trabalho é secreto, fabril e febril.
Mas estamos no fim do século XIX. E não é por esses dias que aparece outra fábrica, de sombras mas agora projectadas, a maquinaria à mostra e não escondida, exibindo-se como novidade e conquista da arte na era da reprodutibilidade técnica? Gorki chamou "mundo cinzento" a este teatro virado do avesso.
A maior parte das vezes, começava assim
"Fábrica sombria" será uma expressão de Sarah Bernhardt para se referir ao teatro como lugar onde a actriz "lapida os seus diamantes na penumbra". Aqui não vai haver de certeza diamantes, penumbra é provável que sim. As segundas aspas são citação já não da Bernhardt mas de um argumento de cinema chamado Phénix, escrito (e nunca filmado) por Jacques Rivette. Foi aí que encontrei a primeira citação e uso-a como título porque é suposto eu ter alguma coisa escrita sobre este guião daqui a um mês: a fábrica entra portanto agora (oficialmente) em laboração. Isto não quer dizer que desse trabalho se veja aqui alguma coisa; o que interessa é que o motor da escrita comece a rodar, mais ou menos secretamente, e pode ser que o blog sirva para ir dando uso ao teclado. Nada me garante que vá conseguir, e então o texto prometido, assim como o blog, não passarão de espectros, assombrações. Não é Phénix (é o que diz na capa do livro) um "filme fantasma"? Bu.
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